Foi-se o tempo em que, para ver um espécime de outro país no Rio de Janeiro, tínhamos que ir visitar as quitandas, botequins e padarias do subúrbio ou os pontos turísticos e a orla da zona sul da cidade. Hoje, além de haver muito mais estrangeiros “disponíveis” nos calçadões de Copa e Ipa, a cidade está vendo a invasão de uma sorte de gringos das mais variadas e surpreendentes nacionalidades.
Duvida? Ainda não tinha se dado conta? Coreanos e chineses já dominam o ramo de pastelarias e bazares 1,99 do SAARA e do subúrbio. Algumas dessas lojinhas, à primeira vista, parecem o mais legítimo mercado de pulgas nacional. Com um pouco mais de atenção, notam-se mercadorias, em sua maioria esmagadora “importada”, e no fundo do balcão – no caixa, para ser mais precisa –, um par de olhos puxados e vários fios de cabelo escorrido controlando tudo o que sai da loja e conferindo item por item do que as meninas brasileiras, normalmente faveladas, normalmente nordestinas, anotaram nos recibos. Será que desconfiam de algo? Mas não são eles os estrangeiros? Não devíamos ser nós os desconfiados?
E por aí vão, descobrindo e explorando nichos que o povo de casa não soube ou não pôde aproveitar. No trânsito, também começam a aparecer as primeiras vans dirigidas pela tribo amarela que mal consegue se comunicar com os passageiros, mas faz bom uso do dinheiro da passagem. Certamente, não vão gastar com cerveja no bar da esquina. Vão economizar para comprar outra van e, em pouco tempo, estarão com uma frota inteira, concorrendo com os maus prestadores de serviço nacionais.
Em cima dos morros, um povo ainda mais escuro que o nosso está aterrissando e botando banca. Medo de briga eles não têm. Vêm de um país de gente muito mais estourada que a nossa. Lá o bicho pega de verdade. Aqui, de vez em quando, vemos uma ou outra notícia nos jornais sobre angolanos presos na alfândega tentando levar ou trazer drogas de um país para outros. Eles já estão aqui, alguns “bem” instalados, com a vantagem de contar com a cordialidade de um dos povos mais solidários do mundo, o carioca.
E, tomando caldo nesse mar de migrantes nacionais e estrangeiros, a cidade vai sendo repartida e recosturada, para o (nosso) bem e para o mal. Diante da Babilônia em que estamos nos transformando, debaixo dos nossos próprios narizes, com muita vaselina para não machucar, parece bobagem reclamar dos empresários gringos (de Iggy Pop e Nine Inch Nails) que impuseram seus shows em detrimento dos shows nacionais, mais uma vez, contando com o mau serviço nacional prestado em fatídico e já citado festival de rock.
Vale dizer que a idéia aqui não é pregar a xenofobia. Turistas são muito bem-vindos (ainda que não tenhamos de fato condições de recebê-los), mas, convenhamos, a atitude submissa com a qual temos nos portado nestes 500 e tantos anos é inadmissível. Se não aprendermos a nos proteger agora, vai ser difícil, mais tarde, identificar quem veio para gerar divisas e quem veio perpetuar nosso estigma de colônia de exploração. Então, neste Natal, valorize o produto nacional. Se o consumo é inevitável, vamos lá!
Opções: artesanatos, marcas brasileiras (vendidas por brasileiros), obras de artistas e escritores brasileiros, já!
Dicas:
*Moda em Bazar – Peças (roupas e acessórios) exclusivas criadas por alunos e docentes dos cursos de moda do Senac Rio. 10 e 11 de dezembro, das 14h às 20h, no Centro de Tecnologia em Moda (R. João Lyra, 154 – Leblon)
*Feira Rio Antigo – edição extra: exposição ao ar livre de móveis antigos, cristais, objetos de arte, raridades, bijuterias (c/ a melhor barraca da cidade, comandada por Bianca e Jaqueline), antigüidades em geral e show do grupo de ritmos genuinamente brasileiros, o Bossa do Samba, às 14h. A feira acontece na Rua do Lavradio, sábado (10 dez.), das 10h às 20h.
*Bazar Noir – Feira de roupas, acessórios e arte de inspiração neogótica, com djs pra incrementar. No Casarão Cultural dos Arcos (R. Mem de Sá, 23). Domingo (11 dez.), das 16h às 22h. R$ 4.
* Mercado Odeon – Moda, CDs, DVDs, livros e cineminha. Cinelândia, sábado (10 dez.), a partir das 11h. *Mistureba – Moda: 30 marcas novas, DJs e shows. Teatro Odisséia. Domingo (18 dez.)
*Feira hippie de Ipanema – A melhor de todas! Todo os domingos na Praça General Osório.
PROGRAMAÇÃO
10/12 – Sábado
• Natiruts, com abertura da boa Canamaré, Fundição Progresso, R$ 30 (estudantes, idosos e demais portadores do direito à meia entrada ou com 1k de alimento ou flyer a ser entregue na hora do show pagam 1/2) + R$ 10 para levar o cd do Natiruts e + R$ 5 para levar o cd do Canamaré
• F.U.R.T.O. – Yuka e cia. se apresentam no Rival. R$ 25
11/12 – Domingo
• Último dia para ver Marcelo Tas no Centro Cultural da Telemar, com a excelente Como chegamos aqui - a história do Brasil segundo Ernesto Varella.
Dia 16/12, tem Turbo Trio, INSTITUTO e Guru, no Circo Voador. (Finalmente!!!!)
Nação News: Quem lamentou não ter visto o show da Nação Zumbi no tal festival vai ter uma compensação. A banda se apresentará no Circo Voador em janeiro e quem levar o ingresso do festival, ganhará brindes!
E continua a promoção!!! As primeiras (e surpreendentes) respostas já estão chegando. Não deixem de participar. AGORA É COM VOCÊS!!!
• Você já foi a algum dos eventos indicados pela coluna? Quais?
• Das dicas lidas na Findi no Rio, qual foi a melhor?
• E a pior?
• A qual gostaria de ter ido e não foi?
• Qual foi o melhor cd nacional lançado este ano?
• Qual foi o melhor cd internacional lançado este ano?
• Qual foi o melhor show de artista nacional do ano?
• Qual foi o melhor show de artista estrangeiro do ano?
• Qual foi o melhor filme que você viu no cinema este ano?
• Mande um comentário para registro na coluna!!!!
sexta-feira, 9 de dezembro de 2005
Arte com o povo
"É o povo na arte e é arte no povo e não o povo na arte de quem faz arte com o povo." (“Etnia”, Chico Science)
Ao longo desses primeiros meses de Café Literário e de Nervo Óptico, falamos de arte, de provocação e de comportamento. Nesta edição, vamos continuar falando disso, mas sob novo enfoque. Obviamente, nem tudo o que é provocação é arte, mas toda arte é provocativa. Então, vamos fingir que os nossos governantes, ao invés de política (e de sujeira), fazem "arte" e que o resultado dessa "arte", que tanto nos afeta, seja chamado de "provocação".
Vocês dão a tela, os pincéis e as tintas como quem diz: "Estou te dando carta branca". E eles saem pintando o sete por aí. O que você faz? Continua investindo neles? Qual seria a sua reação a essa "arte"?
Nosso jovem país teve poucos períodos de democracia. Pode não parecer, mas nosso povo, em poucos anos de exercício eleitoral, conseguiu mudar a cara do país e aprender várias lições. Vejam, começamos com Collor, mudamos para FHC (uma melhora e tanto!) e, quando resolvemos abandonar os Fernandos, colocamos um sindicalista na Presidência. Uma prova de ousadia, independente do desempenho deste ou daqueles governos.
Na contramão dessa evolução, está o povo do Rio, se afundando cada vez mais na demagogia eleitoreira e religiosa, em promessas impossíveis, em obras de fachada, em mega shows e eventos esportivos que tomam a verba da merenda escolar, em ônibus incendiados, em tiroteios à luz do dia ou do luar, na violência que nos encurrala mais e mais a cada dia, em hospitais superlotados...
Palmas para eles, senhoras e senhores, eles estão “fazendo arte” como poucos. Não são nossos artistas, são os nossos arteiros. Mestres na arte da provocação, do ilusionismo, da propaganda, da falácia... Até quando, senhoras e senhores, estaremos nós usando o nariz vermelho no centro do picadeiro? Oremos...
Ao longo desses primeiros meses de Café Literário e de Nervo Óptico, falamos de arte, de provocação e de comportamento. Nesta edição, vamos continuar falando disso, mas sob novo enfoque. Obviamente, nem tudo o que é provocação é arte, mas toda arte é provocativa. Então, vamos fingir que os nossos governantes, ao invés de política (e de sujeira), fazem "arte" e que o resultado dessa "arte", que tanto nos afeta, seja chamado de "provocação".
Vocês dão a tela, os pincéis e as tintas como quem diz: "Estou te dando carta branca". E eles saem pintando o sete por aí. O que você faz? Continua investindo neles? Qual seria a sua reação a essa "arte"?
Nosso jovem país teve poucos períodos de democracia. Pode não parecer, mas nosso povo, em poucos anos de exercício eleitoral, conseguiu mudar a cara do país e aprender várias lições. Vejam, começamos com Collor, mudamos para FHC (uma melhora e tanto!) e, quando resolvemos abandonar os Fernandos, colocamos um sindicalista na Presidência. Uma prova de ousadia, independente do desempenho deste ou daqueles governos.
Na contramão dessa evolução, está o povo do Rio, se afundando cada vez mais na demagogia eleitoreira e religiosa, em promessas impossíveis, em obras de fachada, em mega shows e eventos esportivos que tomam a verba da merenda escolar, em ônibus incendiados, em tiroteios à luz do dia ou do luar, na violência que nos encurrala mais e mais a cada dia, em hospitais superlotados...Palmas para eles, senhoras e senhores, eles estão “fazendo arte” como poucos. Não são nossos artistas, são os nossos arteiros. Mestres na arte da provocação, do ilusionismo, da propaganda, da falácia... Até quando, senhoras e senhores, estaremos nós usando o nariz vermelho no centro do picadeiro? Oremos...
Leitura recomendada:
• 1968 – O ano que não terminou, de Zuenir Ventura
Fundo musical:
• “Até quando esperar” – Plebe Rude
• “Índios” – Legião Urbana
• “Etnia” – Chico Science & Nação Zumbi
A ilustração que melhora esta coluna é de Wilson Domingues. Thanx!
segunda-feira, 5 de dezembro de 2005
Ainda estamos vivos!
Sábado à noite. A desconfiança causada pelo festival amador do final de semana anterior ainda era um fantasma a assombrar as expectativas para o encerramento da seqüência de shows que chegaram ao Brasil com uma década de atraso: Pearl Jam, no Sambódromo.
Alegria, emoção, catárse, gozo coletivo. Palavras para explicar o que aconteceu na Praça da Apoteose ontem à noite. Eddie Vedder, Mike MacReady, Stone Gossard, Jeff Ament e Matt Cameron (ex-Soundgarden) subiram ao palco com poucos minutos de atraso e encontraram uma multidão de 40 mil gigantes ainda aquecidos pelo grunge debochado de Mark Arm e seu Mudhoney. Como bem lembrou Vedder, “no lugar onde desfilam escolas de samba, hoje o Rock de Seattle vai desfilar”.
E ganhou “10, nota 10!”. Os senhores do grunge tinham a faca e o queijo na mão, partiram o queijo, se serviram e repartiram com a platéia. Como todo grande show deve ser. Como toda big band deve fazer. E o Pearl Jam no Brasil tem esse status.
“Last exit” deu a partida para uma série de clássicos que um a um eram acompanhados a plenos pulmões pelo público. Nenhum hit foi deixado de fora, entre eles “Do the evolution”, “Alive”, “Once”, “Jeremy”, “Corduroy”, “Dissident”, “Daughter” e “Animal”. Ramones (com “I believe in miracle”) e MC5 (com “Kick out the jams”) foram homenageados, este com a participação dos integrantes do Mudhoney.
Vedder foi o maestro que regeu a multidão de vagalumes e cigarras. Nos tempos modernos, os isqueiros dão lugar às luzes dos celulares nas músicas mais tranqüilas. “Better man” foi apenas um dos momentos em que o público roubou a cena, cantando metade da música para delírio do vocalista. Em “Black”, Vedder sentou-se à frente do palco para assistir à audiência. Depois, desceu para junto do público.
O show não teve um clímax, foi um clímax. O respeito da banda e, especialmente, de Vedder pelo público foi reconhecido. Seja falando português, se cobrindo com a bandeira, colocando-a sobre o peito ou declarando seu amor pelo Brasil e pelo Rio, a banda foi correspondida à altura. O público deu um show à parte, cantando junto, batendo palmas, marcando o ritmo das músicas com gestos, com coro ou pulando.
Ao subir ao palco, Vedder anunciou que aquele seria o último e o melhor show da turnê. A banda fez o esperado: um excelente show. O público foi a grande surpresa da noite. Prometeu voltar, com um mundo melhor sem Bush. Despediu-se, tocando The Who e desejando paz e amor. O Rio precisava disso. Ainda estamos vivos e de alma lavada.
Alegria, emoção, catárse, gozo coletivo. Palavras para explicar o que aconteceu na Praça da Apoteose ontem à noite. Eddie Vedder, Mike MacReady, Stone Gossard, Jeff Ament e Matt Cameron (ex-Soundgarden) subiram ao palco com poucos minutos de atraso e encontraram uma multidão de 40 mil gigantes ainda aquecidos pelo grunge debochado de Mark Arm e seu Mudhoney. Como bem lembrou Vedder, “no lugar onde desfilam escolas de samba, hoje o Rock de Seattle vai desfilar”.
E ganhou “10, nota 10!”. Os senhores do grunge tinham a faca e o queijo na mão, partiram o queijo, se serviram e repartiram com a platéia. Como todo grande show deve ser. Como toda big band deve fazer. E o Pearl Jam no Brasil tem esse status.
“Last exit” deu a partida para uma série de clássicos que um a um eram acompanhados a plenos pulmões pelo público. Nenhum hit foi deixado de fora, entre eles “Do the evolution”, “Alive”, “Once”, “Jeremy”, “Corduroy”, “Dissident”, “Daughter” e “Animal”. Ramones (com “I believe in miracle”) e MC5 (com “Kick out the jams”) foram homenageados, este com a participação dos integrantes do Mudhoney.
Vedder foi o maestro que regeu a multidão de vagalumes e cigarras. Nos tempos modernos, os isqueiros dão lugar às luzes dos celulares nas músicas mais tranqüilas. “Better man” foi apenas um dos momentos em que o público roubou a cena, cantando metade da música para delírio do vocalista. Em “Black”, Vedder sentou-se à frente do palco para assistir à audiência. Depois, desceu para junto do público.
O show não teve um clímax, foi um clímax. O respeito da banda e, especialmente, de Vedder pelo público foi reconhecido. Seja falando português, se cobrindo com a bandeira, colocando-a sobre o peito ou declarando seu amor pelo Brasil e pelo Rio, a banda foi correspondida à altura. O público deu um show à parte, cantando junto, batendo palmas, marcando o ritmo das músicas com gestos, com coro ou pulando.
Ao subir ao palco, Vedder anunciou que aquele seria o último e o melhor show da turnê. A banda fez o esperado: um excelente show. O público foi a grande surpresa da noite. Prometeu voltar, com um mundo melhor sem Bush. Despediu-se, tocando The Who e desejando paz e amor. O Rio precisava disso. Ainda estamos vivos e de alma lavada.
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