Várias vezes flagrei minhas amiguinhas da escola me olhando com um ar desconfiado. Nunca entendi a razão daqueles olhares. Seguia falando. Achava que elas não acreditavam no que eu dizia. Fui crescendo e me tornando um produto do meio. A linguagem trazida de casa foi ficando para trás. Foi substituída pelo português padrão da tv que assistia, das escolas por onde passei, dos livros que li.Foi então que, há poucos dias, distraída com a embalagem de um xampu que acabara de comprar, me deparei com as instruções do produto traduzidas para o espanhol. E, subitamente, a lembrança dos olhares desconfiados das amiguinhas de escola voltaram à tona. Um momento de “iluminação” para zen budista nenhum botar defeito.
Freud explicaria facilmente o ruído na comunicação dos meus primeiros anos de escola. A culpa era da minha mãe. Claro, as mães e os mordomos são sempre os culpados! Na embalagem do tal xampu, havia duas palavras pronunciadas freqüentemente por minha mãe no nosso dia-a-dia: “enredado” e “desenredar”. A partir delas, uma enxurrada de outros termos e expressões começaram a saltar do álbum de família – “arredar”, “capaz!”, “te mete!”, “rapariga”, “caminha”, “apura, guria!”, “a recém” e o hábito de substituir os pronomes possessivos pelos artigos definidos como em “O pai já saiu” ao invés de “Meu pai já saiu”.
Desavisada, reproduzia, na escola e com pessoas que não tinham a mesma sorte de convivência familiar, a linguagem que ouvia em casa, sem filtros. Nada mais natural, já que é a família o primeiro núcleo social a que somos expostos e são os costumes familiares nosso primeiro manual de etiqueta e de regras sociais.
Nesse contexto, minha casa era realmente um laboratório “sociolingüístico” e tanto. Os habitantes: minha mãe, uma gaúcha da fronteira com o Uruguai, meu pai um ex-boêmio gaúcho de quem não se ouve mais o sotaque há muito. Meus irmãos e irmãs – três gaúchos e um carioca roqueiro e antigo conhecedor das gírias da malandragem –, dedos completamente diferentes de duas mãos unidas há mais de 40 anos.
Acho que, até hoje, ainda cometo, fora do ambiente familiar, as misturas lingüísticas que marcaram minha infância, heranças familiares, talvez genéticas. Não noto mais o estranhamento dos amigos que me ouvem. Se a causa é o que falo ou como falo. Com o passar do tempo, aprendi a externar conteúdos estranhos com formas sutis e histórias simples com rococós que distraem e divertem. Fazer o quê? Como cantava a gaúcha Elis, “vivendo e aprendendo a jogar”.
Há quem reclame (e muito!) da qualidade da programação da tv aberta, ou melhor, da falta dela. Obviamente, comparada aos canais de tv a cabo, a pobrezinha parece agonizar, padecendo com a ausência de criatividade e classe. Seriam seus últimos dias??? Não, claro que não.
No dia em que se conheceram, ele passou a tarde toda atirado no sofá pensando se ia ou não à festa. Pensando se atendia o telefone ou não. Pensando se marcava ou não com os amigos. Pensando se ou se não. Ela estava muito triste, mas sabia que não podia parar. Tentava se recuperar do final traumático de um namoro que não devia ter durado mais do que três dias, mas chegara a três anos. Encheu-se de coragem apenas para ir ao cinema do outro lado da cidade. O brilho eterno de uma mente sem lembranças foi o estopim para concluir o óbvio. Tudo que fizera naqueles três anos, teria feito melhor se estivesse sozinha. O filme a deixara ainda mais melancólica, por isso não ligou para ninguém. Resolveu ir à festa. Do outro lado da Baía, ele também.