sexta-feira, 17 de março de 2006

Curta e Grossa

Sabem aqueles dias em que a gente acorda sem vontade?
Sem vontade de nada, de falar, de não falar, de trabalhar, de ficar em casa dormindo, de sorrir, de chorar, de se mexer, de ficar parada...
Então, hoje é o dia.

Mas preciso contar uma coisa. Chegou a vez da Praça XV “sofrer” o mesmo processo de revitalização pelo qual a Lapa vem passando nos últimos anos. Bom pro Rio! Bom pros cariocas! E quem vem puxando o bloco da ressurreição é o CIRCUITO CULTURAL MERCADO DO PEIXE e a Cooperativa de Artistas Anônimos. Por enquanto, a programação GRATUITA está focada em teatro, festas populares, festival gastronômico, seminários sobre cultura, oficinas e rodas de samba e choro. Quem quiser saber mais deve acessar o site: www.teatrodoanonimo.com.br.

Outra coisa: quem vai assistir aos shows do Eddie e do Mundo Livre pode ir aquecendo as turbinas no site http://www.aponte.com.br/video/1de-andada.html Lá estão ótimos e curtos vídeos de todas as figurinhas do movimento mangue-beat mostrando seus points preferidos e seus habitats naturais. Imperdível!

É isso! Até os shows!

PROGRAMAÇÃO
Sexta, 17/06
MULHERES DE HOLLANDA: vocais femininos cantam as mulheres de Chico. Sala Baden Powell, 19h. R$ 10
EDDIE: os pernambucanos lançam o novo disco Metropolitano, Teatro Odisséia, 22h. R$ 20.

Sábado, 18/03
SANTANA: Praça da Apoteose, R$ 120
LIMUSINE NEGRA: Excelente banda gaúcha de soul e suingue. Estrela da Lapa, 22h. R$ 20.

Domingo, 19/03
MERCADO MISTUREBA: moda e shows de rock Teatro Odisséia das 15h às 23h 1 Kg de alimento não perecível ou R$ 3

Terça, 21/03
FILE RIO: Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, C.C. Telemar, até 21/04. Grátis.

Quarta, 22/03
F.U.R.T.O.: Yuka + banda recebem convidados como Elza Soares e Pedro Luís, E.C. Sérgio Porto. R$ 15
LUIS MELODIA: clássicos do negro gato. Teatro Rival, 19:30h. Quinta também! R$ 20.
BLACK ALIEN: ex-Planet Hemp mata as saudades do seu único disco Babylon by Gus... , Teatro Odisséia, 22h. R$ 15.

Sexta, 24/03
MUNDO LIVRE S.A.: pais do mangue-beat apresentam o show de seu último cd Bêbado Groove..., Circo Voador. R$ 30
A FILIAL: festa Ronca Ronca + hip hop ao vivo. Teatro Odisséia. R$ 20.

Sábado, 25/03
JAMIROQUAI: Claro Hall, R$ 120

CINEMA (pré e) estréias
"O plano perfeito" – dirigido por SPIKE LEE, com (suspiros) Denzel Washington, Clive Owen e Jodie Foster.
"O mercador de Veneza" – Shakespeare! (ING)
"Sal de prata" e "Gatão de meia idade" – são nacionais.
"O veneno da madrugada" – de Ruy Guerra... (Arg/Bra/Por)

FUTURO DISTANTE
Em outubro, chega ao Rio o Supersurf 2006 . Evento que conta com as etapas do Campeonato Brasileiro de Surf, e a constelação de estrelas do mar a qual já estamos acostumados, show de rock à noite e apresentações de skate. Nação Zumbi já está na fita dos primeiros shows. Vamos torcer para que a banda seja a atração da etapa carioca que vai rolar na Barra da Tijuca...

VEM AÍ, EM ABRIL, DISCO NOVO DE CHICO BUARQUE!!!!!!!

quinta-feira, 16 de março de 2006

Coisa de criança

“Na história dos rios nunca acontecera um tal caso, estar passando a água em seu eterno passar e de repente não passa mais, como torneira que bruscamente tivesse sido fechada, por exemplo, alguém está a lavar as mãos numa bacia, retira a válvula do fundo, fechou a torneira, a água escoa-se, desce, desaparece, o que ainda ficou na concha esmaltada em pouco tempo se evaporará. Explicando por palavras mais próprias, a água do Irati retirou-se como onda que da praia reflui e se afasta, o leito do rio ficou à vista, pedras, lodo, limos, peixes que saltando boquejam e morrem, o súbito silêncio.”

("A jangada de pedra", José Saramago)


Desde pequena, sempre quis saber como seria o chão no fundo do mar. Sempre perguntei, mas ninguém nunca me deu uma explicação convincente. Precisava ver com meus próprios olhos. Então, um dia passeando resolvi mergulhar. Venci o medo do mar. Escolhi um lugar tranqüilo, de águas quentes e claras. Calcei pé de pato, coloquei o equipamento básico e fui.

Parecia um cinema!!! Tão lindos os peixes, a vegetação submarina, as conchas e estrelas do mar, os cavalos marinhos... que nem reparei o chão. Esqueci de olhar! De volta à selva de pedra é que me dei conta. Prometi que voltaria para matar essa curiosidade. Nunca mais voltei.

Nas últimas férias, soube de um lugar onde o mar descansa pela manhã. Tira as primeiras horas de folga. Deve ter estado a namorar a lua até mais tarde e sente muito sono de manhã... Simplesmente, se retira. Quando ouvi falar disso, pensei imediatamente: “– É a minha chance!”

Fui lá ver! Fiquei encantada. Olhando para o horizonte, por cima daquela ausência, os barcos distantes pareciam navegar sobre a areia que, sem a malha ora verde ora azul que cobre a maior parte do planeta, apresenta milhares de pegadas. Foi aí que descobri porque dizem que o mar anda. Ela anda mesmo e deixa a marca de seus muitos pés na superfície. Pra onde será que ele vai? Isso eu não sei, só sei que sempre volta. E naquele dia, ele voltou num piscar de olhos. Na subida da maré.

Quando somos crianças achamos que nossos pais podem explicar tudo. Tive sorte. Quando meus pais não podiam, sempre tinha os irmãos mais velhos para responder. Até hoje, quando me pego soltando suspiros para tentar colocar para fora as angústias e dúvidas que às vezes apertam meu peito e a boca do estômago, tenho vontade de ligar e fazer muitas perguntas. Mas as histórias são tão longas... Complicadas... A conta de telefone é tão cara... E a resposta pode ser tão diferente do que eu gostaria de ouvir... Quem sabe nas próximas férias eu não descubro o que ainda falta?

Trilha sonora sugerida:
• "Miragem do Porto", Lenine.

A foto que melhora esta coluna é minha mesmo, tirada durante o carnaval de 2006 em Mangue Seco, PE, e mostra o recuo do mar. Thanx, God!

sexta-feira, 3 de março de 2006

A rosa amarela

“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios milênios no ar”

(“Futuros Amantes”, Chico Buarque)

Para Gercina e Carlos Brandão






Ela era uma estudante interna do convento de Santo Antônio. Ele não era mais que um rapaz. Mas nas horas vagas do convento, ele já enxergava nela a musa, a inspiração para os frevos que sua gente cantaria e espalharia pelo mundo afora.

O tempo passou. Cresceram. Casaram. Ela com o pai de seus muitos filhos. Ele com a mãe dos seus. Mas a vida nunca apagou a chama do amor juvenil que embalou tantas tardes ensolaradas na pequena praça de Igaraçu. Um dia, perceberam que a chama estava mais forte do que nunca. Renderam-se. Não havia mais porque lutar.

A rosa, marcada pelo tempo, deu-se conta de que a vida já aprontara o bastante. E decidiu que só valia ser vivida com uma mão amiga para apoiar, nas horas incertas, e afagar, nas de agonia. Virou o jogo. Sabida, agora amarelada, a bela flor desabrochou do feitiço que a vida lhe impôs e viu que a dor era inevitável, mas que a felicidade podia ser a companheira num caminho tortuoso, desde que convidada.

Viveram uma bela história de amor. Um amor maduro, sábio e valente. Um amor que nunca se preocupou com o que os outros iriam pensar. Um amor que sabia que pra viver só precisava dos dois e de mais ninguém.

O poeta se foi. Ela ficou. Com as lembranças do amor que teve tempo de ser vivido e a certeza de tê-lo encontrado de fato.



"Rosa Amarela"

Encontrei uma rosa amarela
Tão singela e formosa
Guardei-a comigo
Porque lembrava você,
Menina rosa

Mas o tempo passou tão depressa
E a linda promessa você esqueceu
E a rosa já envelhecida
Esmorecida, entristeceu

Você foi a rosa mais linda
Foi a preferida do meu jardim
Esse jardim que um dia
Cheio de esperança
E alegrias sem fim

Por isso eu guardo comigo
A rosa amarela
E sabes por quê
Ela é flor tão singela
É pura, é bela
E lembra você.

(Frevo canção composto por Pedro Costa há muitos anos e cantado até hoje nos carnavais de Recife.)


Agradecimentos:
• Maria das Dores e Carlos Brandão (saudade!) – filhos da rosa.
A linda ilustração que melhora esta coluna é de Wagner Paula. Thank you, man!