terça-feira, 1 de abril de 2008

Chama no peito

Entrei em sala, naquela segunda-feira, e tive uma conversa muito franca com as turmas. Três naquela noite. Cerca de cento e vinte alunos jovens, adultos e idosos. Trabalhadores como eu. Contei a eles que, apesar de ser do conhecimento de todos o fato de o magistério ter virado uma profissão de fé, não é exatamente de fé que um professor se alimenta, não é com fé que ele se veste, mas é com ela que educa seus filhos e os dos outros. Todos riram. Todos entenderam.

Estávamos no mesmo barco, com ou sem diploma. À deriva de governos e de um sistema econômico desumano que vêm desqualificando classes inteiras de profissionais concursados, também conhecidos como os “primos pobres” entre os servidores públicos –– os que lidam diretamente com as camadas mais necessitadas da população.

Sempre ouço pessoas reclamando de desorganizadas repartições, clamando pela tão sonhada privatização do serviço público. Lembro dessas pessoas quando passo horas na fila de algum banco privado para ser destratada por atendentes lerdíssimos e incompetentes e me arrepio quando vejo as altas tarifas cobradas das contas-salário para financiar o caviar de banqueiros.

Lembro dessas pessoas, também, quando meus velhos vão aos médicos do plano de saúde que custa uma fortuna e não conseguem atendimento de qualidade (porque nem todos os médicos conseguem ser aprovados em concursos públicos), nem em tempo justo, ou quando precisam pagar por fora um exame caríssimo porque o plano não cobre.

Também lembro do “mito da privatização” quando chega a conta da companhia telefônica (privada) com cobranças por ligações que não fiz e uma assinatura que sai mais caro do que o número de ligações que faço ou que oferece uma conexão ridícula com a internet. Lembro e me indago se o serviço público seria merecedor de tantas reclamações se contasse com a mesma infra-estrutura e privilégios de que gozam tantas empresas privadas.

Fico tentando entender a lógica de pessoas que reclamam do serviço público e, mesmo com tantas opções no mercado, correm para bancos públicos na hora de financiar sua casa própria; ou colocam os filhos para disputar vagas em conceituados colégios e universidades públicas.

Sigo sem compreender porque tantas pessoas, entre a massa dos que imploram por privatização, gastam porcentagens significativas de seus salários investindo em concursos para cargos públicos...

Voltando à noite de segunda-feira, expliquei aos alunos que interromperia o programa vigente até que o sindicato dos professores suspendesse o movimento contra a indecente proposta de aumento salarial oferecida pelo mesmo governo que gastou milhões no Pan-americano. Os textos didáticos a serem trabalhados em língua inglesa seriam substituídos por dez frases de conteúdo social que tinham como objetivo discutir em sala a situação da educação pública no estado.

Após ouvir minhas explicações, fui questionada se fechar a escola não causaria maior impacto. E depois de refletirmos juntos, todos concordamos que se estivéssemos em casa, apenas o governo lucraria com a economia de luz, merenda escolar, passagens de ônibus e desconto no salário dos professores. Ao contrário, estar em sala discutindo a distância entre a escola que gostaríamos de ter e a que de fato temos tira do atual governo boas chances de voltar a exercer cargos que dependam dos votos desses alunos. E a sensação do poder do voto nas mãos reacendeu neles um lampejo de esperança de ainda haver alguma chance de mudança.

Os alunos foram tocados, mas nas outras salas de aula daquela e de outras escolas, centenas de profissionais que não pagam com fé suas contas todo mês já haviam perdido a tal esperança e jogaram suas toalhas. Desistiram do movimento, de melhores condições de trabalho, de melhores salários, dos alunos, de si mesmos e da educação. A chama, que mesmo depois de uma década de serviço público ainda queima meu peito e minhas idéias, já se apagou em cada um deles. Que pena...

Em tempo: nas poucas linhas que a imprensa-classe-média do Rio de Janeiro dedicou ao movimento de servidores estaduais na época, leu-se muito sobre a interrupção do trânsito, causada pelas manifestações, e sobre a ausência dos policiais civis dos seus postos de trabalho. O medo da violência preocupa mais do que a sua origem: a qualidade de vida e de educação inexistentes. Cabe lembrar aos formadores de opinião que o mesmo movimento também foi composto de médicos e professores.

A arte que ilustra esta coluna é de Flavio L. Nunes Abal. Thanx, boy!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Marx não imaginou isso


E mais essa agora... Na mesa de um bar, aquela moça que mal conhecia resolvera empurrar para cima de mim seus questionamentos emocionais. Pertinentes, vá lá! Mas logo eu? O que sei eu, tão cheia de dúvidas quanto ela. Contou-me com pormenores seus azares afetivos, sempre sob a luz da luta de classes. Falou de um ex-namorado pobretão a quem encontrou, poucos dias depois do rompimento, já acompanhado, vestido da cabeça aos pés com os presentes que recebera dela.

E da última desilusão – um belíssimo rapaz que a procurava para afastar o tédio, satisfazer suas necessidades físicas, alimentar o próprio ego, e ainda agia como se favor fizesse estando ao lado dela. Um homem de parcos recursos por quem ela inúmeras vezes havia se despido de suas convicções e preferências. E, ainda por cima, a maltratava repetidamente na intenção de induzi-la a terminar o romance para poder curtir outras mulheres sem culpa.

Quanto mais ouvia, menos acreditava nos meus ouvidos. Aquela mulher culta, estimada e admirada pelos amigos, bem empregada e independente não combinava com o que sua boca chorosa dizia. Eu não conseguia articular uma palavra. E nem tentava. Não tinha coragem. Não sabia se me indignava com ela ou com a burrice dos homens que passaram por sua vida sem reconhecer com quem estiveram. Até então, imaginava que homens pegavam senha para estar com ela, mas a história era outra.

Aquela mulher, do alto de suas convicções políticas, não sabia se, ao se valorizar, estaria se superestimando e menosprezando homens de condição inferior. Ou, se para assuntos de amor, deveria abandonar sua educação socialista e se relacionar apenas entre iguais, a elite intelectual de sua geração.

Ela dizia que pessoas são pessoas, não importando de que classe social vinham, que educação tivessem recebido ou em quantos cômodos viviam. Pensava mesmo que se sentia mais à vontade entre operários, empregados e subalternos. Talvez, um certo complexo de inferioridade a motivasse a estar sempre entre os menos favorecidos. Ou, quem sabe, algum fetiche com os homens da classe operária...

Contudo, depois de tantas desilusões, começava a mudar de idéia sobre os homens que encontrara. Se todos seriam motivo de aborrecimento e lágrimas, por que não desfrutar de um pouco de conforto das próximas vezes? Jantar e não ter que pagar a conta; não precisar dirigir; ser levada para casa (ou melhor ainda, para outra casa); ganhar presentes, em vez de dar; ouvir elogios, em vez de fazer; perguntar ao invés de responder. O mundo podia ser mais suave. Já olhava com simpatia para os vizinhos de bairro e os colegas de trabalho. E, à medida que a cerveja ia fazendo efeito, conseguia até flertar com os rapazes da mesa ao lado. Saí antes de ver o desfecho de tantas lamentações misturadas a tulipas de cerveja e considerações socioeconômicas. E até hoje, penso naquela mulher, sem entender em que momento Marx e amor se misturam.

A ilustração que melhora esta coluna é de Alexandre Antunes. Thanx, guy!

domingo, 2 de dezembro de 2007

Sous le même ciel

“Rio de baixadas com seus vales
Vale a pena
Sua pobreza é quase um mito
Quando fito seus contornos
Lá do alto de algum dos seus mirantes
Que são tantos
E quem te disse que há miséria só aqui
Quem foi que disse que a miséria não sorri
Quem tá falando que não se chora miséria no Japão
Quem foi que disse não existem tesouros na favela
Então...
Tudo vale a pena
Sua alma não é pequena”
(“Tudo vale a pena”,
Pedro Luís e Fernanda Abreu)

À minha frente, a tela branca parecia instigar ainda mais a expectativa pelo começo da sessão. A exemplo do comercial daquele conhecido canal de filmes antigos da tv a cabo, é quando o filme começa que deixamos de viver as nossas vidas e passamos a viver a vida das personagens que vemos nele. E quando as luzes se apagaram, Paris, Je t’aime deu o ar da graça da bela cidade dos amantes e de personagens como eu e como você em situações que milhares de pessoas, como nós, passam todos os dias nas mais diversas partes do mundo, mas sem a sorte de estar lá.

O frio dentro da sala do cinema tornava-se mais intenso e a cidade luz, mais distante à medida que novos casais se formavam nas diferentes versões de cada diretor. Entre os vários pares representados no filme, o do segmento “Faubourg Saint-Denis”, do diretor Tom Tykwer, formado por uma atriz americana em começo de carreira (Natalie Portman) e por um rapaz francês cego (Melchior Beslon), foi o que mais tempo povoou meus pensamentos. Obviamente, o cinema não deixaria de mostrar que o rapaz cego era o que melhor enxergava naquele relacionamento. No entanto, mesmo sem surpresas, a história soa como aqueles conselhos que quanto mais ouvimos mais precisam ser repetidos.

E na volta para casa, lembrei de um casal de amigos que queriam ser mais do que isso e não conseguiam. Porque, no mundo real, ele era a metade cega da laranja e ela já não tinha mais paciência para lapidar, polir e esperar. Para piorar, os dois amedrontados por fantasmas do passado mal conseguiam caminhar na mesma direção e davam voltas em torno de suas próprias órbitas imaginárias; às vezes, colidindo, às vezes, se afastando, em sistemas solares mal desenhados.

Na ficção, o lirismo teve espaço garantido pela graciosa interpretação de um casal de mímicos e do único falante deste trecho do filme, o filhinho engraçado desse casal. Um desfile de pares de várias gerações e diferentes origens passa pela grande tela. Entretanto, nem mesmo em Paris e nem mesmo no cinema todos os finais são felizes. E até em Paris, Je t’aime, algumas pessoas solitárias aprendem a celebrar a vida do jeito mesmo como ela é – um sorteio: alguns tiram o grande prêmio; outros, prêmios menores; e há aqueles que saem sem nada, mas nem por isso ficaram de fora da brincadeira. Pela janela do ônibus, vi meu nome pichado nos muros, subúrbio adentro. O frio diminuía. Paris est ici.