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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Diário de bordo do Peru!

A chegada em Lima foi engraçada, os taxistas no aeroporto avançam sobre os turistas como urubus na carniça. Nunca vi coisa igual! Para chegar até o albergue, peguei o que chamam por aqui de urbanitos, que nada mais são do que vans caindo aos pedaços cheias de “gente marrom”... (Gente marrom, mas com cabelo liso... Ai, que inveja!)

A primeira impressão que dá de la ciudad é que passaram uma serra elétrica em torno do terceiro andar dos edifícios. Boa parte da cidade é baixa, com prédios que vão até o quinto andar, no máximo. Na avenida de acesso ao aeroporto, fui pensando: será que gastei grana para ver essa cidade empoeirada e feia? Aí, lembrei da Avenida Brasil e da Linha Vermelha e fiquei quieta... rs.

Chegando ao bairro do albergue, uhu!!! CHIQUÉRRIMOOOO!!!! Que alívio! Muitas flores e ruas limpas, criollos..., tipo zona sul carioca! Su nombre explica a empolgação: Miraflores. Eu não saí DA PENHA para ficar no subúrbio de Lima, não é?

Os peruanos (especialmente os mais humildes) abrem um largo sorriso quando descobrem que sou brasileira, perguntam logo sobre futebol. Andei por toda cidade durante dois dias, estive no mercado que pegou fogo na mesma noite da tragédia, mas saí bem antes. Tentei banhar-me nas águas congelantes do Pacífico em uma linda praia chamada Punta Hermosa, mas não houve condições.

O povo cultua o pollo (frango) por aqui. Come-se o pobre animal por toda parte! Por falar em comida, me deliciei com alguns pratos locais: cebiche (ou ceviche), broaster de pollo y papas fritas, bistek, ija de galina. Mas o grande lance aqui são as bebidas não-alcóolicas muito boas: chicha morada (suco feito de maíz, uma espécie de milho roxo dos Andes) e Inca Kola (um excelente refrigerante de abacaxi).

No dia 30, peguei um avião para Cuzco. A cidade é LINDA!!! Muitas flores, ruínas e prédios históricos. Sensacional! Há muitos cyber-cafés por aqui. Mas, em geral, os serviços de correio e telefonia são caros, por isso decidi não mandar cartão para ninguém, ok?

Fiquei animada para ver a passagem do ano. Andei pelas feiras livres e percebi que a cor predominante no réveillon da cidade será o amarelo. Então, comprei um saquinho de pétalas de flores dessa cor. Parece que a festa vai ser muito bonita!

Como não poderia deixar de ser, fui bater ponto no mercado municipal de Cuzco. E, além de chocolates em tamanhos e formatos surpreendentes (fálicos, inclusive) e lindas frutas, encontrei um brasileiro neto de japonês e uma inglesa que moram em Santa Tereza e estavam comprando ingredientes para uma feijoada que iriam fazer para uns franceses hospedados no mesmo hotel que eles... Coisas da globalização! Fiquei encantada também com as postas dos peixes vendidas por aqui, muito grandes e cheirosas, e com os pães gigantescos.

Os peruanos (principalmente os vendedores!) me chamam de amiga... Achei um hotel-monastério MARAVILHOSO que cobra 195 dólares a diária, e tem uma loja da H Stern dentro! Show de bola, mas “preferi” ficar num mais humilde!

O Rock and Roll rola direto por aqui (tô até pensando em ficar, para me livrar dos funks e dos pagodinhos...). Há dois canais de tvs exclusivos de videoclipes: a MTV e o M21. Na rua, Beatles, Cure, Garbage, entre outros, competem de igual para igual com a música dos Andes.

Minha cabeça está uma confusão só! Às vezes falo inglês, outras, português, em outras, me arrisco no espanhol e hoje me peguei dando bom dia para uma vendedora em italiano!!! (putz!)

Dos efeitos da pressão atmosférica, só sinto cansaço quando ando rápido ou ando e falo ao mesmo tempo, o que me faz andar muito devagar. Meu coração dispara com muita facilidade, mas, às vezes, não sei se é pelo cansaço ou pela beleza da cidade.

No dia 2 de janeiro, finalmente, saí de Cuzco rumo a Águas Calientes, estação mais próxima de Machu Picchu. A viagem custou cerca de 60 dólares. Como tinha ocorrido deslizamento de terra no dia anterior, havia dois ônibus conduzindo os turistas para o topo da montanha onde descansam as ruínas da cidade inca.

Um ia até o ponto do deslizamento, todos desciam e pegavam o que estava preso do outro lado. Valentona, resolvi ir a pé, o que me custou duas horas de subida e, como para descer todo santo ajuda, trinta minutos de descida correndo para escapar da chuva que começava a cair.

Antes que me perguntem: “Não, não senti nenhuma energia diferente em Machu Picchu”. Até porque, depois daquela subida, eu mal conseguia sentir as pernas... Mas o lugar é realmente incrível! Os incas provavelmente não eram mesmo deste planeta!

No mais, tô me divertindo muito. Bem, galera, espero sinceramente que a passagem de ano de vocês tenha sido tão feliz quanto a minha! Um grande abraço e até domingo quando estarei de volta à terra brasilis! Bjs a todos! Sara

P.S.: Vou sentir saudade de Cássia Eller!


Diário de Bordo escrito entre 31 de dezembro de 2001 e 4 de janeiro de 2002, em um cybercafe em Cuzco, Peru.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

We’re still alive

Não! Apesar do título, não vou falar da violência do Rio. Os números das últimas eleições são claros, o povo daqui gosta da tensão. Então, vamos respeitar democraticamente a vontade da maioria. Apesar do respeito à maioria ter mais a ver com uma expressão de força do que com a democracia propriamente dita. Afinal “maioria” é uma questão de quantidade, e não necessariamente de qualidade. Mas isso é papo para mais de metro. E não é disso que vim falar este mês.

O motivo é bom! Uma saudade gostosa de sentir. Tenho certeza de que muitos leitores vão concordar comigo. Daqui a poucos dias, um dos melhores shows já vistos no Rio de Janeiro completará 5 anos.

A Praça da Apoteose estava lotada de uma gente animada e preparada para fazer festa. O vocalista subiu ao palco agarrado numa garrafa de vinho, no maior porre. Mas a adrenalina de ver milhares de pessoas pulando e cantando curou a bebedeira e o que se seguiu foi inesquecível.

Já assisti a centenas de shows e nunca vi uma interatividade tão grande entre artista e público. Quem estava no show do Pearl Jam nos primeiros dias de dezembro de 2005 sabe do que estou falando.

Naquela noite, a audiência roubou a cena inúmeras vezes. Poucas horas depois, as gravações dos shows já estavam disponíveis na rede. Ainda hoje, ao ouvi-las a pele arrepia em “Better Man”, quando o povo rouba a música de Eddie Vedder que deixa a galera levar no gogó.

Fecho os olhos e lembro dos detalhes, das feições dos meus amigos e de todos em volta, a realização de anos de espera estampada em forma de felicidade coletiva e versos cantados a plenos pulmões.

Lembro dos celulares erguidos durante a música “Black”, os isqueiros da nova geração. Lembro de Eddie Vedder sentar na beira do palco para ver o público se divertir. Lembro do amigo ao lado ligando pra dividir a música pelo celular. Lembro de encontrar com os colegas de trabalho no dia seguinte ainda empolgados com o que vimos na véspera.

Fico pensando como meros mortais conseguem através de acordes promover momentos de catarse coletiva como o daquela noite? Imagino que uma aura de boa energia estava envolvendo a Apoteose naquele momento porque um evento com 40 mil pessoas extasiadas daquele jeito não registrou uma briga!

Puxa vida! É de energia assim que nossa cidade precisa. É impossível não sentir uma certa melancolia ao lembrar daquela noite e ver no que o Rio está se transformando. Porém, ainda há tentativas heróicas de resgatar nossa vocação para o show. O movimento “Brasilidade: todos pela cultura para todos”, neste ano, escalou um elenco fabuloso (Lenine, Céu, Zeca Baleiro, Arnaldo Antutes, Adriana Calcanhoto, Wilson das Neves, entre outros) para se apresentar na Lapa de graça em homenagem ao antropólogo Darcy Ribeiro.

Vários desses espetáculos estão agendados para este final de semana. Seria uma boa oportunidade de reviver momentos como aqueles do show do Pearl Jam, mas por enquanto o Rio pega fogo... Que Deus nos ajude e a arte nos redima!

Quem quiser reler a crônica fresquinha do show: http://sarasimoes.blogspot.com/2005/12/ainda-estamos-vivos.html

sábado, 14 de agosto de 2010

Utilidade Pública em números

De pé na fila, com um sapato e um casaco na mão, finalmente chegara sua vez. O caixa oferece: “O valor de R$ 150,00 pode ser parcelado em até oito vezes”. Apesar da quantia disponível no banco, a oferta é aceita. Quando chega a primeira fatura, a surpresa: juros! “Aquela filha da pxtx no caixa não falou nada sobre juros!” No dia seguinte, nova fila. Ufa, conta paga. Os R$ 150,00 foram pagos integralmente. Nove meses depois, nova surpresa: “O quê? Estão me cobrando os juros?” “É, senhora, primeiro a senhora deve estar pagando, então a senhora pode estar reclamando...” Depois de muita discussão, o socorro veio pelo número 08002852121 e pelo e-mail defesadoconsumidor@camara.rj.gov.br. A Dra. Anísia foi a empenhada servidora da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro que lutou contra a C&A e resolveu a questão: suspensão das cobranças e devolução da quantia paga indevidamente.

Depois de doze anos de uso, a máquina de lavar morreu. Dois meses lavando roupa na mão até que finalmente todo o dinheiro necessário fosse economizado para a compra de uma nova Eletrolux. Uma semana depois de o dinheiro ter saído da conta, chega a máquina. Já nas primeiras lavagens, a decepção: mesmo limpando o filtro no final de cada utilização, as roupas saem cobertas de fiapos! Dez dias depois, a máquina devolve a roupa com pedaços de uma peça que se partira durante a lavagem. O serviço autorizado agenda a visita de acordo com a disponibilidade do técnico, claro, no melhor estilo “é pegar ou largar”. Desmarcam-se todos os compromissos, inclusive os profissionais, para aguardar a tão esperada visita. O carteiro bate. O síndico bate. A testemunha de Jeová bate. O dia acaba e nem sinal do técnico! Na autorizada: “Ué? Ligamos para seu telefone e não tinha ninguém em casa!” Depois de muitos marimbondos cuspidos via Embratel, foram feitos novos agendamentos. Um mês e várias reclamações no SAC da empresa depois, nada havia sido resolvido. Desta vez, o socorro veio pelo site http://oglobo.globo.com/servicos/defesa_consumidor/defesa_consumidor_1.asp da Defesa do Consumidor do Jornal O Globo. E sob a ameaça de publicação da carta zangada da consumidora no jornal de domingo, em dois dias o técnico substitui a peça em três minutos!

Em uma bela manhã de sol de julho de 2009, o telefone toca e uma funcionária de telemarketing do Banco Cruzeiro do Sul inunda o ar com seus gerundismos desnecessários para oferecer um cartão visa internacional sem anuidade. Para não desconfiar da esmola farta, a cada mês em que houvesse uso do cartão o valor de R$ 15,00 seria descontado em folha sob título de pagamento mínimo. Tudo andava bem até que exatamente um ano depois da proposta feita, os tais descontos em folha passaram a ser ignorados pelo banco e cobrados indevidamente na fatura. “Jesus, será possível que vai começar uma nova briga?” A funcionária gerundista insiste: “Em casos como esse, orientamos o cliente para que esteja enviando por fax ou carta a cópia do seu contracheque e nós estaremos analisando sua reclamação...” “Ah! Então há outros casos como esse! Um ano atrás, quando vocês ligaram implorando para que aceitasse o cartão, não disseram que eu deveria possuir um aparelho de fax! Então, vocês me roubam e eu é que tenho que provar que fui roubado?” Consciente de que no Brasil o cliente nunca tem razão, o consumidor escaldado procura novamente o site do jornal. Na mesma semana, em novo contato com a central de atendimento do cartão, o discurso é outro: “Desculpe, houve um engano, o pagamento deve ser feito com desconto do valor que já foi subtraído da sua folha de pagamento...” E, melhor, sem gerúndios!!!

É preciso brigar, e brigar muito ainda para ser respeitado no Brasil. A compra é uma opção, a reclamação é um direito, mas usar os órgãos de Defesa do Consumidor tornou-se uma obrigação. O consumidor brasileiro hoje é multifunções: pesquisa, escolhe, procura, paga, usa, briga e ainda tem a responsabilidade de educar aqueles que deveriam servi-lo. Os casos relatados referentes às empresas C&A, Eletrolux e Banco Cruzeiro do Sul são verídicos, assim como são verídicos o telefone, o e-mail e o site divulgados neste texto que estão à disposição de todos. Usem e abusem. A guerra está declarada. Vamos à luta que a briga é boa!

sábado, 17 de abril de 2010

Língua suja

Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão.

Quando eu era pequena, meu pai não me queria no botequim nem na venda. Os donos desses estabelecimentos eram senhores portugueses. E, na condição de portugueses, eram também muito desbocados. Na ilusão de proteger a mim e minhas irmãs de todo o mal e de todas as impurezas do mundo, ele nos mantinha afastadas dos comerciantes lusitanos e de estádios de futebol.

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Crescidas, falamos palavrões. Eu, particularmente, quando dou uma topada na quina do armário ou quando algum eletrodoméstico essencial se recusa a funcionar. Mas evito usá-los em público. Só em pensamento. Ou em voz baixa durante a TPM.

Mas o que deveria mesmo ser protegida era a língua, não as pessoas. Os palavrões mais cabeludos viraram banalidade até nas conversas em ambiente de trabalho. Antes, os meninos jogavam bola na rua e não xingavam se uma mulher estivesse passando. Hoje, nem as idosas são poupadas.

Soltar aquele palavrão horroroso em um momento de revolta já não tem a menor graça. Pois, estão em falta palavrões que choquem. Todos os existentes ficaram fracos de tanto que são repetidos. Amigos se saúdam com dois ou três daqueles bem grandes numa mesma frase. Dá até para imaginar o encontro: “– Oh, seu f.... .. p..., p... q.. p...., tu anda sumido, seu v....!” Tudo isso, é claro, em alto e "bom" som, como quem canta um hino.

Palavra dócil
Palavra d'agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Chega a dar tristeza de ouvir uma frase com verbos discordantes, pronomes equivocados e uma infinidade de adjetivos impronunciáveis. Mas a verdade é que essa é a nova regra, não prevista em qualquer acordo ortográfico. A favelização da língua chegou com a força destruidora de um tsunami, atingindo pobres e ricos, vagabundos e trabalhadores, descolados e conservadores.

Onde escrevi favelização, leia-se empobrecimento. Pois, não sei se já reparam, mas tudo o que é ruim, imoral (e engorda) é associado com os menos favorecidos, nunca com a elite. Mas lembro perfeitamente de uma reportagem do SBT Repórter, há alguns anos, em que o jornalista Hermano Henning entrevistou um grupo de refugiados angolanos que, com suas famílias, caminhavam por uma estrada fugindo da guerra civil.

Ao ouvi-los, não pude evitar algumas lágrimas, movidas por sentimentos diferentes: compaixão pelo sofrimento e pelas condições precárias que enfrentavam; alívio por saber que estavam se salvando; e um misto de orgulho e inveja ao constatar que, apesar de tanta miséria, aqueles irmãos de raça falavam um português absolutamente irrepreensível, como há muito eu não ouvia por aqui.

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

Então, tratemos logo de esclarecer este mal entendido: o empobrecimento da língua não está necessariamente ligado à decadência econômica. Até porque a Angola é um país muito mais pobre do que o Brasil, e seu povo fala melhor do que o nosso. E o Brasil está bem menos pobre do que já foi, e seu povo anda falando pior do que nunca.

Brasileirinho
Pelo sotaque
Mas de língua internacional...
De um povo-chocolate-e-mel

Aproveitei o carnaval deste ano para curtir São Paulo. Em visita ao belo Museu da Língua Portuguesa, ouvi a seguinte frase na voz de Fernanda Montenegro: “A nossa língua é o nosso melhor retrato, nossa pátria mais profunda".

Meu Deus, será mesmo?

Falamos a sua língua, mas não entendemos seu sermão.

Citações:
“Volte para o seu lar”, de Arnaldo Antunes
“Uma palavra”, de Chico Buarque
“Refavela”, de Gilberto Gil

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Carteira de estudante, quem não quer?

Na última vez em que fui ao cinema (para ver Jude, claro! rsrsrs), fiquei chocada com a quantidade de gente no shopping center. Os seguranças do local também estavam atônitos. Do lado de fora, o calor senegalês a que os cariocas têm sobrevivido provavelmente era a razão da multidão fora de época. Afinal, não se tratava de natal, dia das mães, dos pais, nem de coisa nenhuma. Era uma quarta-feira como outra qualquer, mas aquele era um dos poucos locais frescos acessíveis na região.

Subi todos os andares do tal shopping e ao chegar ao cinema no último pavimento, quase caí durinha. O hall conseguia estar mais lotado do que as praças de alimentação. Seria horário de promoção? Desconto no preço do ingresso? Não! Estariam dando doce? Também não!

Então, olhando a garotada toda em volta, lembrei da carteira de estudante. Quando eu estudava (nem faz tanto tempo assim, coisa de décadas apenas...), não havia a tal carteira e ia ao cinema 2 vezes por ano talvez. Talvez, menos. Mais do que isso, não creio.

Já estava no segundo grau, em 1990, quando soube de um convênio do governo do estado com o Teatro Municipal, me inscrevi e passei a infernizar a vida da inspetora da escola para ser “sorteada”. Seria uma grande oportunidade de assistir ao “Lago dos Cisnes” no então inacessível teatro.

Lembro do leve tremor nas pernas ao entrar, o suor frio nas mãos e de ouvir com muita atenção as recomendações da orientadora pedagógica que acompanhou os alunos sobre o espetáculo e sobre como devíamos nos comportar em um ambiente como aquele. Até hoje, ao entrar em determinados locais, recordo aquelas orientações. Ainda são de grande valia.

Mas o meu evento cultural favorito é e sempre foi show de rock, de preferência ao ar livre. Naqueles tempos, eu e meu irmão já ficávamos à espreita em outubro e novembro, ansiosos para a divulgação das atrações dos festivais de verão “Alternativa Nativa”, “Coke in Concert”, “Rock in Rio”, “Hollywood Rock”... A lista das atrações definiria nossos pedidos de natal e aniversário. E era isso mesmo, um só presente para as duas datas.

Podíamos pedir bens duráveis (desde que baratos), presentes que poderíamos usar, ouvir ou ler para o resto de nossas vidas, mas trocávamos o concreto, o palpável por horas de diversão efêmeras. O argumento da época me serve até hoje quando invisto algum trocado em viagens ao invés de modernos computadores, móveis, tvs sofisticadas, etc. “Um disco pode quebrar, arranhar; um livro pode despencar, molhar, queimar; posso perder estas coisas. Do show [ou da viagem] nunca vou esquecer.”

Reconheço o tremendo esforço que meus pais faziam para garantir uniforme, material, passagem, comida para os três filhos que ainda não trabalhavam. Mas pedir grana para shows, cinemas, futebol, discos, videolocadora etc., aos nossos olhos parecia coisa pouca e, ainda assim, éramos comedidos.

De tempos para cá, o governo fornece a camisa do uniforme, a passagem, o material e ainda há a bendita carteira de estudante. Hoje em TODOS os eventos que vou, vejo a molecada usar suas carteirinhas para pagar seus ingressos.

Na prática, estão sendo iludidos, pois o advento da carteira foi concomitante ao aumento dos preços dos ingressos em 100%. Assim, quem não tem carteira paga o dobro. E os estudantes não pagam meia coisa nenhuma.

Apesar disto, muito mais gente frequenta os eventos culturais. Muito mais artistas vêm se apresentar no Brasil. Há muito mais peças de teatro em cartaz e por muito mais tempo do que antigamente. Há público para todos (apesar do teatro no Rio estar restrito ao centro e maciçamente à Zona Sul).

Ainda assim, há quem reclame da carteira de estudante. Mas é gente que quer enriquecer explorando o público. Gente que prefere não vender o limão, a vender o limão pelo preço justo fingindo que está vendendo meia.

Ouço diariamente um programa de humor e futebol em que um dos integrantes faz com frequência discursos contra as carteiras de estudante. Já pensei em parar de ouvir o tal programa, mas seria uma injustiça deixar que um idiota me fizesse abrir mão das gargalhadas diárias.

A questão é que o Zé Mané foi, na década de 1980, líder de uma daquelas “one hit bands” e até hoje ele faz show usando a mesma música para chamar público. Provavelmente, ele deve associar seu pouco público à carteira de estudante e não à chatice do seu trabalho, mesmo tendo um dvd premiado sabe-se Deus com quais critérios.

Não por coincidência, a mesma “pessoa” usa o espaço do programa para discorrer (no mau sentido) sobre governos que, segundo ele, são “populistas” por terem criado benefícios para os trabalhadores em detrimento da elite.

O pobrezinho repete sem perceber a mesma falácia dos governos ditatoriais a que fomos submetidos nas décadas de 1960 e 70. Foi vítima de uma lavagem cerebral. Os demais participantes do programa precisam de dose extra de jogo de cintura para devolver o bom ânimo ao programa depois de tão infelizes digressões.

Mas voltando à carteirinha, fico pensando em tudo o que eu poderia ter feito “no meu tempo” se tivesse uma carteira desta. Afinal, só assisti à primeira peça de teatro quando já estava trabalhando. Tantos shows, tantos filmes aos quais poderia ter assistido sem sacrificar o orçamento da família...

Para economizar, meus irmãos iam ao Maracanã na geral. Hoje, sem geral e com ingressos a preços violentos, como seria se ainda fossem estudantes “descarteirados”? Agora que trabalho, faço contas para saber se vai dar para ir ao show do New Oder (anos atrás) ou do Coldplay (daqui a alguns dias) e depois de tirar daqui, puxar dali, desisto e fico em casa imaginando como deve ter sido. Até me ocorreu voltar a estudar, mas a grana ficaria ainda mais curta. Ah, se eu tivesse nascido mais tarde...

Trilha sonora sugerida: "Esse tal de roquenrol" c/ Rita Lee!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A dinâmica da chuva no subúrbio do Rio

20:30 - Cenário após 10 minutos de chuva forte na zona norte da cidade maravilhosa.

(Abaixo, Avenida Lobo Júnior, um dos principais acessos à Avenida Brasil.)









20:40 - Depois de 20 minutos, ruas cheias e sacos de lixo boiando entre os carros.








20:45 - Só os carros de grande porte conseguem passar.








21:20 - A chuva passa, os carros passam, mas o lixo fica espalhado pelas ruas.







A culpa é dos moradores?

Não. A Comlurb orienta os moradores da área a depositarem seus sacos de lixo nas esquinas!!!

A culpa é dos garis?

Não. Às 21:30 os garis passaram catando com as mãos os sacos que boiavam e o lixo espalhado no meio da rua. Fizeram o melhor que podiam.

A culpa é de quem?

Seria exigir uma inteligência sobrenatural que a companhia responsável pela coleta urbana utilizasse estruturas suspensas ou protegidas da chuva para que os moradores pudessem recolher seus lixos?

E agora o que fazer? Esperar sentado a próxima chuva?

Não. Resta a nós suburbanos torcer para que o mesmo aconteça no Jardim Botânico para que a “imprensa” faça um escândalo e o prefeito passe a pressionar a Comlurb em busca de uma solução óbvia. Enquanto isso, evitem perambular nas ruas suburbanas na hora da chuva.

Há outra alternativa?

Sim. Duas.

A 1ª: Não esqueçam dessas imagens, tenham uma consciência crítica e pensem bem na hora de votar nas próximas eleições para prefeito. Chega de mauricinhos!!!

A 2ª: Contratem os caciques da tribo Cobra-Coral e peçam uma consultoria sobre os horários mais apropriados para não sair de casa. Segundo um certo secretário municipal eles mandam na chuva!

Carta aberta à população do estado do Rio de Janeiro

Nós, professores servidores do estado do Rio de Janeiro, escrevemos esta carta aberta à população para mostrar o que realmente envolve a questão da incorporação da gratificação chamada "Nova Escola"*, que vem sendo veiculada na mídia, e a diminuição do nosso plano de carreira.

* Nova Escola foi o esquema criado pelo ex-governador Anthony Garotinho para avaliar o desempenho das escolas, por meio de métodos até hoje ainda não compreendidos pela maioria, e que desnivelou os salários da classe.

A princípio, não foi dito o valor do salário do professor estadual iniciante, que é de apenas R$ 607,26. A população deve imaginar que recebemos alguma ajuda extra, como vale transporte, vale refeição, que qualquer empresa é obrigada a pagar a seu funcionário. Porém, não é isso o que acontece. Não recebemos tais benefícios, apesar de serem direitos de todo o trabalhador, e ainda temos o desconto previdenciário de 11%, recebendo um salário líquido de aproximadamente R$ 540,00.

O Governo veicula comerciais na TV, afirmando ter distribuído laptops para todos os professores. Mas, na verdade, esses laptops foram adquiridos pelo sistema de comodato, ou seja, os equipamentos são emprestados pelo governo que, quando bem entender, pode pedi-los de volta. Além disso, os professores iniciantes não foram agraciados.

Atualmente, observamos a climatização das salas de aula em um esquema em que o Governo aluga os aparelhos, gerando ainda elevado consumo de energia elétrica.

A citada incorporação do Nova Escola se dará até 2015, divida em 7 parcelas. Há casos de professores que receberão em 2010 um aumento de R$ 2,47. Valor que talvez não seja suficiente para pagar uma passagem.

Outro ponto é o grande número de pedidos de exoneração de professores. Estima-se que sejam aproximadamente 30 por dia! Também não há condições de trabalho e isso nos incomoda. Contudo, o que causa maior indignação é a carta compromisso enviada aos nossos lares na qual o mesmo governador empenhou sua palavra e agora se esquece de tudo que prometeu. As promessas foram as seguintes:

Promessa 1- Reposição das perdas dos últimos 10 anos. (Realidade: Reajuste de 4% e mais 8% de uma perda de mais de 70%.)

Promessa 2- Manutenção do atual plano de carreira e inclusão dos professores com carga horária de 40h. (Realidade: Não só manteve o professor de 40h fora do plano, como diminuiu as diferenças entre os diferentes níveis de 12% para 7,5%.)

Promessa 3- Fim da política de gratificação Nova Escola e incorporação do valor da gratificação ao piso salarial. (Realidade: Esqueceu de avisar que seria em 7 anos, sem reposição da inflação e sem equiparação salarial.)

Promessa 4- "A secretaria de Estado de Educação do meu governo terá como titular pessoa com histórico na área de educação e vínculos com o magistério." (Realidade: A atual titular da pasta é da área de computação, burocrata, sem passagem pelo magistério.)

Além de nunca dar voz aos trabalhadores, prática que inclui os professores, a imprensa ainda distorce a situação real. Somos pais e mães de família, que fizeram um curso superior na esperança de um futuro melhor.

Contamos com a compreensão e a colaboração do povo do nosso estado. Você pode não ser professor, seu filho e sua família podem não precisar da escola pública, mas nossa sociedade só vai melhorar com Educação Pública de qualidade.

Vista a camisa da Educação. Faça a sua parte para promover uma verdadeira mudança na história da Educação no estado do Rio de Janeiro. Precisamos consertar a verdadeira realidade do magistério estadual. E, nas próximas eleições, pense em tudo isso antes de votar.

Vamos mostrar a nossa força!!!

Agradecemos imensamente a atenção,

Professores do Estado do Rio de Janeiro

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ENCURRALADA



Hoje é dia 09 do 09 de 2009. Enquanto alguns voltam sua imaginação para fantasias místicas, assisto a um programa sobre os 45 anos do golpe de 64. (E por falar em coincidências numéricas, a soma dos algarismos de 45 é...) Fala-se que o dia de hoje seria uma data propícia para revoluções e grandes mudanças.

Lembrei imediatamente da manifestação dos meus colegas de trabalho ontem, em frente à Assembleia Legislativa, que culminou no confronto entre colegas de dureza, funcionários públicos estaduais: professores e policiais.

É praticamente certo que a alguns metros da manifestação algum pivete (que deveria, poderia e precisaria estar dentro de uma sala de aula) estivesse fazendo “algum ganho” livremente, pois quem deveria estar se (pre)ocupando com a segurança estava, na verdade, batendo nos grandes malfeitores da sociedade atual, os professores, essa raça de vagabundos.

No entanto, a manifestação ocorreu um dia antes do portal da transformação se abrir. E, segundo o Mestre dos Magos, agora o Vingador já conta com a maioria dos deputados estaduais para aprovação do aumento parcelado em seis anos para a categoria. O Vingador, filho de professora, está mais preocupado com os lucrativos royalties advindos do pré-sal.

Afinal, a educação dos outros que se lixe, pois garantir o próprio futuro é muito mais importante. O desenvolvimento do país que se lixe, pois a retenção local dos lucros provenientes dos tais royalties garantiria orçamento para obras faraônicas e superfaturadas que cristalizarão sua reputação como o grande governador que não consegue atrair investimentos para o estado, nem oferecer educação, segurança e saúde de qualidade para o povo sem que uma câmera de tv esteja ligada por perto.

Vale lembrar, Vingador, que a descoberta do petróleo na camada submarina foi conquista de uma empresa estatal federal e não estadual. Até porque o orçamento destinado para pesquisa nas universidades estaduais não permitiria sequer a pesquisa da camada subcutânea, o que dirá da submarina.

Assim como nas manifestações que ocorriam na época da revolução, alguns apanharam, a justiça não será feita, não haverá união sequer entre os que seriam beneficiados pelas mudanças propostas e, pior, tudo cairá no esquecimento. Pelo menos, nas mentes entorpecidas dos telespectadores guiados e enebriados pela ditadura midiática de agora.

Em 1964, lembro-me bem, aguardava na fila do chocolate quente, no refeitório da colônia com meus colegas anjinhos, a oportunidade de voltar à Terra. O que só viria a acontecer 11 anos depois.

Nem por isso deixei de conhecer os nomes importantes da época de ambos os lados da questão. Quem entrou para a história e quem foi expulso dela. Quem já rondava o poder nos confins e conseguiu manter a tão sonhada “governabilidade” até hoje. Quem se aproveitou da história e quem ainda se apropria dela, apesar de fazer o contrário do que pregava na época. Estes são muitos...

Da fila do chocolate quente, espiava tudo que se passava aqui embaixo. Ficava doida para descer para “dar uma força”, mas ainda não era a minha hora. Quando desci, aprendi tudo na escola. Quando cresci, fui para frente da sala de aula. Lá encontro alunos mais velhos do que eu, que viveram aquela época, mas não sabem o que se passou. Têm pena dos professores, mas querem que a aula acabe logo para ver os últimos capítulos da novela sobre um país distante.

Em contrapartida, os mais jovens não parecem ter por que lutar. Com um talão de 24 prestações podem comprar um eletrodoméstico, um computador, um game de última geração no Brasil. Com um talão de 72 folhas podem até comprar um automóvel para estacionar na calçada em frente de casa. Mesmo que algumas contas fiquem para trás vez ou outra, o conforto da família está garantido.

Não parecem ter por que lutar. Hoje podemos dizer o que quisermos na Internet, mas nos noticiários e demais programas de TV, o monólogo impera. Na seção de cartas dos leitores nos jornais e nos programas de rádio, a voz do povo é a voz de Deus desde que editada.

O ideal de justiça social ou de uma sociedade mais igualitária agora é chamado de utopia socialista e vai desaparecendo na distância. Graças aos próprios governos que empregaram mal esse regime. Graças a um massacre publicitário que durante décadas vem se encarregando da lavagem cerebral, verdadeiro “genocídio” de sonhos de um mundo mais justo.

A falência do sistema capitalista, cujos indícios foram verificados nas últimas crises econômicas mundiais, aponta para ideias surgidas em países que vêm tentando através da social democracia (ou algo levemente parecido com isso) proteger o sistema financeiro sem sacrificar a população (ver filme “SICKO”, de Michael Moore). Ideias estas que indicam a perda de importância do dinheiro em detrimento da qualidade de vida. É justamente neste ponto que os questionamentos voltam a acontecer.

O mesmo ocorre comigo. Há alguns anos, decidi conduzir minha vida rumo à tal qualidade de vida, abdicando do lucro. Escolhi minha profissão e a sigo com dedicação praticamente exclusiva, apesar da baixa remuneração. Porém, em um momento de efervescência como lembrou-me os da revolução, ao invés de arregaçar as mangas, me vejo encurralada pensando nas contas para pagar e no ponto que será cortado se aderir à greve.

Estamos livres da ditadura militar, mas estamos presos em uma cadeia invisível chamada poder econômico. O dia acabou e não consegui atravessar o portal. Notei que minha liberdade de escolha esbarra em um muro invisível que começa em um capataz, o funcionário subalterno que cumpre ordens e vigia o “gado” para que ninguém se rebele. Mas não consigo ver onde o tal muro termina.

Contudo, penso que o fim de todo o muro é a queda. Se na Alemanha ele caiu, no Brasil, ele um dia há de cair também. E saio por aí assobiando Beatles como uma desculpa para minha covardia.
“You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well, you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know that you can count me out
Don't you know it's gonna be all right
all right, all right”
(Beatles, “Revolution”)
Fotos retiradas dos sites www.cgtb.org.br e www.rnw.nl, respectivamente; ambas retratam manifestações ocorridas na década de 60.

domingo, 30 de agosto de 2009

Quem ama o Rio odeia o Rio

Neste ano, foram inúmeros os amigos hospedados em casa para quem acabei servindo de guia. Acho até que merecia uma recompensa (de preferência em espécie) da prefeitura pelos serviços prestados. Digo isso porque foi uma mão de obra fazer bonito e ainda ter que enfrentar o trânsito do Rio, driblar a falta de educação de seus moradores, conseguir mostrar o que a cidade tem de melhor, desviando a atenção do que ela tem de pior.

Definitivamente, ela é muito menos maravilhosa para os “pés rapados” que habitam sua zona norte. Talvez o fato de a estátua redentora estar de costas para essa região seja um fator preponderante para tão poucos investimentos sérios das autoridades oficiais. Refiro-me especificamente às oficiais, pois as não-oficiais já investem nesta zona (sem trocadilhos) há muito tempo sem qualquer interferência daquelas.

Contudo, há algo que não pode ser ignorado: o talento do carioca para a arte! Em outubro de 2005, na coluna “Nervo Óptico” que escrevia para o caderno Armazém Literário do JB on line, enalteci o trabalho dos grafiteiros cariocas pela arte que vinham espalhando pelos muros da cidade.

Hoje a situação é crítica. Qualquer um que se ache artista, sai borrando as poucas áreas limpas disponíveis, transformando o graffiti em um elemento a mais a contribuir para a poluição visual que assola o Rio.

Além disso, o hábito de tentar enxergar a beleza do conjunto arquitetônico da cidade por detrás das pichações é um treino para os olhos e para a sensibilidade, que virou, mais do que uma prática desafiadora, uma missão impossível. A cidade está tomada pela imundice.

O princípio é o mesmo que leva seus moradores a atirar latas de cerveja ou de refrigerante, embalagens de alimentos e cascas de frutas pelas janelas dos carros e ônibus. Não há no mundo sistema de coleta de lixo eficiente o bastante para suportar uma população como a do Rio. É triste constatar que de todos os lugares que já visitei – que não foram poucos –, não há ruas tão sujas quanto as nossas, seja no Brasil ou no exterior.

Todas as visitas que recebi vieram de grandes capitais brasileiras, porém uma delas (a mais recente) ficou horrorizada com a quantidade de gente que simultaneamente lotava as ruas, os ônibus, os trens e os metrôs. “De onde sai tanta gente”, perguntava o amigo perplexo. Só me restava rir.

Confesso que fui obrigada a ver o Rio, e minha localização dentro dele, com outros olhos. Até então, me contentava com o subúrbio por não precisar me deslocar com frequência para os distantes pontos turísticos da cidade. Hoje, admito: “moro mal”. Moro em um Rio que as novelas não mostram.

Obviamente, a sujeira, os buracos, o descuido sempre incomodaram, até mesmo em detalhes aparentemente de pouca importância. O suplício a que são submetidos os motoristas que têm seus amortecedores danificados nos buracos do asfalto não é exclusividade dos moradores motorizados.

Os pedestres também sofrem. Prova disso é que, muito antes de receber tais visitantes, já havia me atentado para o risco de usar salto alto se necessário fosse caminhar pelas calçadas esburacadas dos bairros suburbanos. Nota-se que o risco diminui, mas não desaparece mesmo em Ipanema ou no Leblon. É difícil ser elegante por aqui.

Mas não pensem vocês que andar de sandália rasteira é menos complicado por essas bandas. O Rio de Janeiro é um eterno “puxadinho”. As obras aqui nunca terminam. Seja entre os órgãos públicos ou os próprios moradores, a regra é “guardar” na calçada a areia, o cimento e o que mais for necessário para a empreitada.

Logo, na primeira chuva ou vento, todo o material se espalha e quem estiver passando terá inevitavelmente sua parcela de contribuição na propagação da imundice pelas ruas e, consequentemente, para dentro de casa. E o estado dos pés depois dessa jornada pelo manguezal urbano? Os salões daqui deveriam ter um incentivo fiscal. Manicuras, pedicuras e esteticistas deveriam ter um diploma adicional por tratarem de questão de saúde pública.

“Parece brincadeira, mas não é.” Está cada vez mais difícil morar no Rio e gostar dele. Os recursos naturais são só o que prestam. Porém, não é possível viver só de paisagem. Há, aqui, uma confusão generalizada entre o público e o privado. Cada um faz o que quer em público, quando justamente deveria se comportar decentemente por respeito ao espaço coletivo.

Quer berrar no telefone, quer falar palavrão alto, quer fazer xixi? Faça em casa, dentro de quatro paredes, no seu espaço particular. Quem precisa andar na rua é obrigado a aturar a falta de educação alheia. Os cariocas já não são mais aquele exemplo de simpatia.

A falta de educação e cordialidade abraça desde os comerciantes que se instalam em áreas residenciais e não respeitam os moradores do entorno até os funcionários e prestadores de serviço que atendem muito mal o público. E passa, especialmente, pelos “cariocas” que não nasceram no Rio.

A julgar pela situação atual, qualquer grande evento, como copa do mundo ou olimpíadas, exigirá um esforço hercúleo para transmitir uma imagem do povo local que esteja um pouco acima do tolerável, porém muito distante da simpatia normalmente atribuída aos nativos da cidade.

A capital fluminense que abrigava a fama de cosmopolita por ser a cidade de todos, acabou se tornando terra de ninguém, onde cada um faz o que quer desordenadamente. A população cresceu demais e a cidade não se preparou para isso.

Percebam nesta crônica um desabafo, um alerta, um pedido de socorro ou, quem sabe, uma despedida. A menos que o Rio acabe e outro seja construído em seu lugar, o crachá de carioca está se tornando um fardo pesado de carregar. Portanto, o último que sair, limpe o pé e apague a luz.


Em um trecho da calçada, carro, buracos e poça d'água. Por onde passar?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Já posso ouvir o silêncio

Cai a noite da sexta-feira santa. Depois de dois dias de amidalite, os novos remédios finalmente resolvem mostrar sinal de eficácia. Estendo na cama o melhor lençol de algodão. As fronhas cheiram a limpeza. Do quarto imerso na penumbra, ecoam notas esvoaçantes de uma canção celta. O banho morno antecipa o clima para o descanso, mais do que merecido, necessário. A garganta ainda dói. Os ouvidos ainda doem. A cabeça lateja. Mas está tudo pronto. Deito. Durmo.

Minutos depois, num sobressalto, ouço os primeiros acordes de um violão altíssimo, acompanhados de uma estridente microfonia que estremece as janelas do quarto. Do restaurante no andar térreo, os clientes gritam e aplaudem. Com o passar das horas, cubro a cabeça com os travesseiros. Ponho fones de ouvido, aumento o volume, tiro os fones de ouvido. Faço ioga. Ligo a tv, desligo a tv. Choro. A febre reaparece. O corpo já não aguenta e adormece.

Minutos depois, num sobressalto, meninos de rua esmagam com os pés latas de cerveja e refrigerante. Ali na calçada embaixo da minha janela. A poucas horas da manhã do sábado de aleluia. Espero. Uma por uma... Espero. Elas nunca acabam... Espero. Eles se divertem. Amanhece o dia, a cidade acorda, e meus olhos denunciam: Judas foi malhado esta noite.

Tempos atrás, havia a tradição de silenciar com a lembrança das torturas e da morte na cruz. O clima solene e respeitoso, em pelo menos uma sexta-feira no ano, de quem demonstra gratidão pelo gesto de generosidade e amor ao próximo, aos poucos tem ficado para trás, pelos bárbaros habitantes do planeta, em nome de lucro e diversão. Sinal dos tempos?

A semana passou. Na sexta-feira seguinte, muito cedo, acordo num sobressalto. No telefone entendo “mãe” e “hospital”. Enquanto troco de roupa, aviso os irmãos. Saio sem pensar. Tudo o que pôde ser feito, foi feito. O dia passa em frações de segundo. Ninguém sente fome, nem sono, nem cansaço. Só medo. Ela reage. O dia acaba. Todos voltam, mas ela fica. É preciso mais do que um enfarto, mais do que um edema, para abater uma mulher como ela. Minha mãe! Quisera eu ser forte assim. Por muito menos, perco o sono e choro.

Cai a noite desta longa sexta-feira. Mais tranquila, estendo na cama lençóis que cheiram a limpeza. O banho morno começa a aliviar o estresse do dia. A música no quarto acaba. Fecho os olhos e, bem suave, ao fundo, percebo o sutil violão que vem do restaurante no andar térreo. Vozes e aplausos elegantes saúdam e agradecem a boa música recém-tocada. Queria ouvir mais um pouco, mas o corpo não aguenta e adormece. O clima de civilidade perdura e anuncia que o mundo está melhorando. Um novo dia amanhece e traz com ele a sensação de que no final tudo vai acabar bem.

P.S.: Dedico a palavra “civilidade” aos que gerenciaram o restaurante do andar térreo na noite do dia 17/04/2009, pelo exemplo de atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração, boas maneiras e cortesia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Da janela da minha cozinha

Aquela sexta-feira deveria ter sido de festa. Formatura dos alunos que superaram todos os obstáculos e dificuldades para terminar o segundo grau. Mas a chacina, resultado dos conflitos da noite anterior, deixou o saldo de vítimas espalhadas justo no portão da escola, e a tão aguardada festa não pôde acontecer.

O episódio descrito acima foi recente, e – a despeito do dia festivo – todos os dias, cenas como essa acontecem por aí, por aqui, acolá. Entretanto, a frequência com que ocorrem em bolsões de pobreza a que nos acostumamos chamar de "favela", modernamente rebatizados de "comunidades", é bem maior para alívio dos que lá não moram e dos que se acham inatingíveis.

Por questões geográficas e pela natureza do seu povo, o Rio de Janeiro é um dos lugares do País e do mundo onde maior mistura há entre classes sociais. Contudo, uma certa hipocrisia permite aos cariocas a boa convivência entre patrões e empregados, nas areias das praias, nas quadras de samba, nos estádios de futebol, apesar da pouca importância dedicada ao morar mal, especialmente por aqueles que moram muito bem.

Contra a maré, nunca consegui entrar em uma favela sem me sentir incomodada com as condições de vida dos que ali moram. Pouco me importa se alguns dizem estar ali porque gostam. Pouco me importa se há, em algumas casas, um conforto que no meu apartamento não há. Se há ar condicionado em todos os cômodos, apesar das baixas contas de luz. Se há um carro parado na porta. Favela é sinônimo de ocupação irregular e desordenada de uma área mal explorada, tanto para quem está dentro quanto para quem está fora dela.

Para os que moram fora, favela é o mesmo que bagunça e favelado virou sinônimo de gente de maus modos. Se é verdade que o homem é resultado do meio, o fim da favela seria a chave para uma equação aparentemente insolúvel.

Mesmo que haja pessoas bem intencionadas tentando diluir o preconceito contra ela, o que realmente importa é que os trabalhadores que lá moram merecem condições dignas de habitação. Saneamento, segurança, áreas de lazer, escola de qualidade, centros culturais, casas bonitas, bem acabadas, jardins, asfalto, calçamento, crianças brincando nas ruas sem a ameaça de tomar um balaço à queima roupa vindo de uma "autoridade" oficial (porque foi-se o tempo em que favelados morriam de bala perdida).

Tentou-se há coisa de vinte anos colocar escolas em favelas. A classe média reagiu de forma tão indignada que até hoje alguns jornais cariocas estampam nas primeiras páginas o baixo rendimento de tais escolas, como se prédio e locação fossem os responsáveis exclusivos. Como se um ambiente conturbado e a baixíssima qualidade de vida dos alunos não existissem.

Se por um lado, "o Rio de Janeiro todo é uma favela", como diz a letra dO Rappa, por outro, temos a maior rede de escolas públicas do país. A sua ineficiência gritante também seria um reflexo das tais escolas construídas dentro de favelas? Ou Tostines vende mais porque está sempre fresquinho? Isto é, a escola é que faz o meio ou o meio age sobre a escola?

É mais do que preciso, é urgente, uma política séria de habitação para o Rio de Janeiro e para o Brasil em que todos ganhem, o governo, a iniciativa privada, mas, principalmente, o povo. Porque isso é possível desde que haja vontade política e verdadeira de melhorar as condições de vida da população.

Voltando de ônibus de Angra dos Reis, vejo já no nosso município muita área vazia onde poderiam ser construídas habitações para a população que se dispusesse a sair da miséria de suas comunidades. O sucesso da procura a programas recentes de financiamento habitacional da Prefeitura comprova que muitos querem, sim, morar um pouco mais distante, se isso significar a realização do sonho da casa própria. O que fica faltando a essas áreas vazias é uma infra-estrutura bem planejada que inclua comércio e serviços, ao invés de simplesmente despejar o povo e isolá-lo bem longe da “civilização”.

Da janela da minha cozinha, vejo um prédio de 3 andares, com 5 ou 6 apartamentos por andar, absolutamente abandonado. Se o dono do prédio o vendesse para o governo, e a Caixa o financiasse a preços populares, 18 famílias teriam um bom lugar para morar. Da janela da minha cozinha... O que você da sua janela?

"Favela, só quem vive nela sabe como ela é
As roupas na corda representam a bandeira da favela
São os ternos dos burgueses
Dependurados, secando ao sol do subúrbio
Os que trabalham as leis pra Dona Maria,
Principalmente pensando em si próprios,
Não beneficiam, não,
Quem lava e passa sua roupa todo dia
Pra manter o luxo, ostentando o vício,
Ele vai se corrompendo, vai deixando o lixo
Pra Dona Maria limpar"
("Favela" - Cidade Negra, em Enquanto o mundo gira)
Foto minha.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Manifesto à bravura

Esta manhã, acordei para ver o que parecia ser a última gota do amor que tinha debaixo das mangas acabar. Depois disso, voltei a dormir. E a tristeza me fez sonhar com um par de calças que se desprendiam do varal e caíam no asfalto. Os carros passavam por cima, atropelando o par. Um possível significado para o sonho. Corri o mais que pude para tirar aquelas peças do meio da rua e, a seguir, entrava às pressas num mercadinho que já estava fechando para comprar um único bombom. Logo depois, um telefone me chamava e, do outro lado da linha, alguém me contava que recebera bombons seus, prova irrefutável de culpa pela visita que me fizera nesta manhã.

“No dia em que você foi embora eu fiquei sentindo saudades do que não foi, lembrando até do que eu não vivi, pensando em nós dois...” Soube que viciados em heroína também têm sonhos como esse. Talvez o vício seja uma analogia bem apropriada.

Olhando um caminhão que passou há pouco transportando enormes espelhos e me trazendo de presente reflexos do que minha vista não alcançava, me ocorreu a ideia de tecer um manifesto à bravura. À bravura dos que não se deixam parar pelo medo e pela covardia. À bravura dos que sabem zunir longe o sapato que aperta. Dos que arrancam a pedradas o dente que dói. Dos que não têm medo de enxergar e, uma vez que enxergam, veem e, uma vez que veem, decidem.

Resolvi tecer o manifesto movida pela minha própria ignorância, que não me permite compreender a covardia. Movida também pelo meu individualismo, que me fez decidir ser livre até querer me prender a alguém. Movida pela ambição, que não me deixa aceitar a mediocridade de ter a felicidade nas mãos e deixá-la partir. Movida pela inquietação, que me impede de suportar a acomodação de viver uma vida morta e enterrada.

A todos que, como eu, entendem que a vida não vale nada sem a paixão de vivê-la, um brinde! A todos que entendem que a paixão não vale nada se não for escancarada e plena. A todos que não querem viver pela metade e, por isso, vivem intensa e conscientemente cada momento do presente, muitos brindes. Um ano novo, repleto de possibilidades, nos espera.

Agora só quero que se calem todos os que cantam o amor. Quero a guitarra elétrica e ardida de Lúcio nas veias. O som da minha banda favorita berrando nos ouvidos para não me deixar esquecer que o que realmente importa está comigo. O resto não tem importância alguma.

Feliz aniversário, mundo velho de guerra.


“...E quando estou contigo eu quero gostar
e quando estou um pouco mais junto eu quero te amar
e aí te deitar de lado como a flor que eu tinha na mão
E a esqueci na calçada só por esquecer
Apenas porque você não sabe voltar pra mim.
Oh, Risoflora, vou ficar de andada até te achar...
Oh, Risoflora, não me deixe só...”
(“Risoflora”, Chico Science)


Citação a Lenine no segundo parágrafo, “O último pôr do sol” (http://vagalume.uol.com.br/lenine/o-ultimo-por-do-sol.html).

sábado, 25 de outubro de 2008

Olho no lanceeee!

Da penúltima vez em que fora a uma partida de futebol, estava acompanhada de um colega de trabalho. No intervalo do jogo, meu colega, que ocupava o assento ao meu lado, se levantou e ficou de costas para o campo admirando a arquibancada acima de nós. Como não se tratava de um colega gay (creio eu!), imaginei que estivesse olhando as moças bonitas que estavam algumas fileiras acima.

Naquele instante, lembrei imediatamente dos shows em que ia com meu irmão e dos olhares que ele lançava para (todas) as moças bonitas que passavam. Pensava comigo, tomara que meu parentesco com ele seja óbvio! E torcia para que eu não me parecesse com aquelas mulheres que andam de mãos dadas com o “parceiro” pelas ruas do centro da cidade e não percebem (será?) que o acompanhante está olhando para outra mulher. E pior, a outra mulher nota que está sendo secada pelo “companheiro” alheio. O que será que elas pensam umas das outras?

Pulando da digressão de volta para o estádio, não pude torcer para que o grau de parentesco parecesse óbvio, porque não havia grau de parentesco com o colega de trabalho. A decisão mais sensata que pude tomar na hora foi aproveitar a vantagem de ser uma mulher num jogo de futebol e admirar as belas paisagens que desfilavam ao meu redor: os torcedores. Raramente se pode contar com tantas opções para admirar no dia-a-dia. Em um estádio em dia de jogo, estão todos ali aglutinados, a nata, exercendo a sua virilidade e “graça” para as poucas corajosas que se atrevem a invadir um espaço tradicionalmente masculino.

Pois bem! Recentemente, uma série de desencontros me levou ao mesmo estádio, mas desta vez, pasmem, sozinha. Isso mesmo! Queria muito ver aquele jogo e os machos disponíveis foram sem mim. Saí de casa, fui até a bilheteria do estádio, comprei o ingresso, entrei, sentei, torci, ri, gritei, aplaudi e fui embora. Toda essa diversão, sem me preocupar em torcer para que o parentesco parecesse óbvio. Hilário foi observar o ar de interrogação de alguns com a presença de uma torcedora apaixonada como eles, porém solitária. E descobri que não há mais tabus. Não há lugar em que minhas pernas não possam me levar.

Um dia desses, aquele mesmo colega de trabalho me mandou um e-mail com fotos do David Beckham secando as cheerleaders num jogo ao lado da sua bela esposa Spice Girl. Nas fotos, ela estava uma fera. O título do e-mail era “Até Beckham passa por isso”, mas acho que o título certo deveria ser “Até uma bela Spice Girl passa por isso”! rs

Trilha sonora sugerida:
Chico Buarque - "O futebol"


Foto de Sara Simões - Estádio João Havelange, o "Engenhão".

sábado, 19 de abril de 2008

Tempo perdido?

“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo tempo do mundo...”
(Renato Russo)

Acordei chateada depois de uma noite mal dormida por conta do funk de uns vizinhos barulhentos. Acordei triste por causa de uma esperança frustrada. Acordei, fazer o quê? Tomei um banho e me dei o dia. Fui à praia. Os vizinhos caíram no esquecimento, mas a tristeza persistiu. Perambulei pelas horas e pelas ruas, procurando preenchê-las e tentando não pensar no espinho que me incomodava, mas já pensando. The girl with a thorn on her side.

Tentava me convencer a aproveitar melhor meu momento de liberdade, a observar com atenção o vento batendo nas árvores, a brisa do mar tocando fresquinha na pele ardida, a criatividade dos ambulantes, as crianças se divertindo, a Piauí que carregava comigo. Levantei e fui embora. Pele queimada, barriga roncando, testa franzida, pensamento anuviado, coração pesado... Passos rápidos.

Fui ver minha mãe. Conversando sobre as coisas da vida, me distraí e, naqueles momentos de jeito simples, esqueci do espinho. Levantei e fui embora. Cabeça leve, rosto tranqüilo, olhos baixos, passos lentos, tentando evitar o bater solitário da porta que deixaria a rua cheia e iluminada para trás.

Encontrei afazeres e me ocupei deles, o espinho voltava a latejar. As notícias da noite passaram por meus olhos, mas não entraram por um ouvido nem por outro. O universo de máquinas de lavar, ferros de passar, esmaltes de unha, e-mails tomou uma forma onírica, bem diagnosticada pela psicanálise como ocorrências possíveis em lapsos de atenção.

Só no final da noite, começo de um novo dia, foi que uma música de um programa de tv me despertou daquela aura etérea. Os primeiros acordes de Tempo Perdido trouxeram à memória, em questão de segundos, sensações vividas numa época remota em que todas as paixões infantis iriam durar para a vida toda até o final de semana seguinte. A epifania gerada pela canção de Renato Russo não me libertou da tristeza que me atormentou por toda aquela semana, mas me avisou que as paixões ainda são infantis e, até o final da próxima semana, tudo pode mudar novamente. Relaxei. O espinho ainda dói, mas isso passa. Amanhã voltarei à praia.
A ilustre arte que melhora esta coluna é "La persistencia de la memoria" (ou "Los relojes blandos" ou "El tiempo derretido"), de Salvador Dalí. Thanx, man!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Chama no peito

Entrei em sala, naquela segunda-feira, e tive uma conversa muito franca com as turmas. Três naquela noite. Cerca de cento e vinte alunos jovens, adultos e idosos. Trabalhadores como eu. Contei a eles que, apesar de ser do conhecimento de todos o fato de o magistério ter virado uma profissão de fé, não é exatamente de fé que um professor se alimenta, não é com fé que ele se veste, mas é com ela que educa seus filhos e os dos outros. Todos riram. Todos entenderam.

Estávamos no mesmo barco, com ou sem diploma. À deriva de governos e de um sistema econômico desumano que vêm desqualificando classes inteiras de profissionais concursados, também conhecidos como os “primos pobres” entre os servidores públicos –– os que lidam diretamente com as camadas mais necessitadas da população.

Sempre ouço pessoas reclamando de desorganizadas repartições, clamando pela tão sonhada privatização do serviço público. Lembro dessas pessoas quando passo horas na fila de algum banco privado para ser destratada por atendentes lerdíssimos e incompetentes e me arrepio quando vejo as altas tarifas cobradas das contas-salário para financiar o caviar de banqueiros.

Lembro dessas pessoas, também, quando meus velhos vão aos médicos do plano de saúde que custa uma fortuna e não conseguem atendimento de qualidade (porque nem todos os médicos conseguem ser aprovados em concursos públicos), nem em tempo justo, ou quando precisam pagar por fora um exame caríssimo porque o plano não cobre.

Também lembro do “mito da privatização” quando chega a conta da companhia telefônica (privada) com cobranças por ligações que não fiz e uma assinatura que sai mais caro do que o número de ligações que faço ou que oferece uma conexão ridícula com a internet. Lembro e me indago se o serviço público seria merecedor de tantas reclamações se contasse com a mesma infra-estrutura e privilégios de que gozam tantas empresas privadas.

Fico tentando entender a lógica de pessoas que reclamam do serviço público e, mesmo com tantas opções no mercado, correm para bancos públicos na hora de financiar sua casa própria; ou colocam os filhos para disputar vagas em conceituados colégios e universidades públicas.

Sigo sem compreender porque tantas pessoas, entre a massa dos que imploram por privatização, gastam porcentagens significativas de seus salários investindo em concursos para cargos públicos...

Voltando à noite de segunda-feira, expliquei aos alunos que interromperia o programa vigente até que o sindicato dos professores suspendesse o movimento contra a indecente proposta de aumento salarial oferecida pelo mesmo governo que gastou milhões no Pan-americano. Os textos didáticos a serem trabalhados em língua inglesa seriam substituídos por dez frases de conteúdo social que tinham como objetivo discutir em sala a situação da educação pública no estado.

Após ouvir minhas explicações, fui questionada se fechar a escola não causaria maior impacto. E depois de refletirmos juntos, todos concordamos que se estivéssemos em casa, apenas o governo lucraria com a economia de luz, merenda escolar, passagens de ônibus e desconto no salário dos professores. Ao contrário, estar em sala discutindo a distância entre a escola que gostaríamos de ter e a que de fato temos tira do atual governo boas chances de voltar a exercer cargos que dependam dos votos desses alunos. E a sensação do poder do voto nas mãos reacendeu neles um lampejo de esperança de ainda haver alguma chance de mudança.

Os alunos foram tocados, mas nas outras salas de aula daquela e de outras escolas, centenas de profissionais que não pagam com fé suas contas todo mês já haviam perdido a tal esperança e jogaram suas toalhas. Desistiram do movimento, de melhores condições de trabalho, de melhores salários, dos alunos, de si mesmos e da educação. A chama, que mesmo depois de uma década de serviço público ainda queima meu peito e minhas idéias, já se apagou em cada um deles. Que pena...

Em tempo: nas poucas linhas que a imprensa-classe-média do Rio de Janeiro dedicou ao movimento de servidores estaduais na época, leu-se muito sobre a interrupção do trânsito, causada pelas manifestações, e sobre a ausência dos policiais civis dos seus postos de trabalho. O medo da violência preocupa mais do que a sua origem: a qualidade de vida e de educação inexistentes. Cabe lembrar aos formadores de opinião que o mesmo movimento também foi composto de médicos e professores.

A arte que ilustra esta coluna é de Flavio L. Nunes Abal. Thanx, boy!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Marx não imaginou isso


E mais essa agora... Na mesa de um bar, aquela moça que mal conhecia resolvera empurrar para cima de mim seus questionamentos emocionais. Pertinentes, vá lá! Mas logo eu? O que sei eu, tão cheia de dúvidas quanto ela. Contou-me com pormenores seus azares afetivos, sempre sob a luz da luta de classes. Falou de um ex-namorado pobretão a quem encontrou, poucos dias depois do rompimento, já acompanhado, vestido da cabeça aos pés com os presentes que recebera dela.

E da última desilusão – um belíssimo rapaz que a procurava para afastar o tédio, satisfazer suas necessidades físicas, alimentar o próprio ego, e ainda agia como se favor fizesse estando ao lado dela. Um homem de parcos recursos por quem ela inúmeras vezes havia se despido de suas convicções e preferências. E, ainda por cima, a maltratava repetidamente na intenção de induzi-la a terminar o romance para poder curtir outras mulheres sem culpa.

Quanto mais ouvia, menos acreditava nos meus ouvidos. Aquela mulher culta, estimada e admirada pelos amigos, bem empregada e independente não combinava com o que sua boca chorosa dizia. Eu não conseguia articular uma palavra. E nem tentava. Não tinha coragem. Não sabia se me indignava com ela ou com a burrice dos homens que passaram por sua vida sem reconhecer com quem estiveram. Até então, imaginava que homens pegavam senha para estar com ela, mas a história era outra.

Aquela mulher, do alto de suas convicções políticas, não sabia se, ao se valorizar, estaria se superestimando e menosprezando homens de condição inferior. Ou, se para assuntos de amor, deveria abandonar sua educação socialista e se relacionar apenas entre iguais, a elite intelectual de sua geração.

Ela dizia que pessoas são pessoas, não importando de que classe social vinham, que educação tivessem recebido ou em quantos cômodos viviam. Pensava mesmo que se sentia mais à vontade entre operários, empregados e subalternos. Talvez, um certo complexo de inferioridade a motivasse a estar sempre entre os menos favorecidos. Ou, quem sabe, algum fetiche com os homens da classe operária...

Contudo, depois de tantas desilusões, começava a mudar de idéia sobre os homens que encontrara. Se todos seriam motivo de aborrecimento e lágrimas, por que não desfrutar de um pouco de conforto das próximas vezes? Jantar e não ter que pagar a conta; não precisar dirigir; ser levada para casa (ou melhor ainda, para outra casa); ganhar presentes, em vez de dar; ouvir elogios, em vez de fazer; perguntar ao invés de responder. O mundo podia ser mais suave. Já olhava com simpatia para os vizinhos de bairro e os colegas de trabalho. E, à medida que a cerveja ia fazendo efeito, conseguia até flertar com os rapazes da mesa ao lado. Saí antes de ver o desfecho de tantas lamentações misturadas a tulipas de cerveja e considerações socioeconômicas. E até hoje, penso naquela mulher, sem entender em que momento Marx e amor se misturam.

A ilustração que melhora esta coluna é de Alexandre Antunes. Thanx, guy!