Hoje é dia 09 do 09 de 2009. Enquanto alguns voltam sua imaginação para fantasias místicas, assisto a um programa sobre os 45 anos do golpe de 64. (E por falar em coincidências numéricas, a soma dos algarismos de 45 é...) Fala-se que o dia de hoje seria uma data propícia para revoluções e grandes mudanças.
Lembrei imediatamente da manifestação dos meus colegas de trabalho ontem, em frente à Assembleia Legislativa, que culminou no confronto entre colegas de dureza, funcionários públicos estaduais: professores e policiais.
É praticamente certo que a alguns metros da manifestação algum pivete (que deveria, poderia e precisaria estar dentro de uma sala de aula) estivesse fazendo “algum ganho” livremente, pois quem deveria estar se (pre)ocupando com a segurança estava, na verdade, batendo nos grandes malfeitores da sociedade atual, os professores, essa raça de vagabundos.
No entanto, a manifestação ocorreu um dia antes do portal da transformação se abrir. E, segundo o Mestre dos Magos, agora o Vingador já conta com a maioria dos deputados estaduais para aprovação do aumento parcelado em seis anos para a categoria. O Vingador, filho de professora, está mais preocupado com os lucrativos royalties advindos do pré-sal.
Afinal, a educação dos outros que se lixe, pois garantir o próprio futuro é muito mais importante. O desenvolvimento do país que se lixe, pois a retenção local dos lucros provenientes dos tais royalties garantiria orçamento para obras faraônicas e superfaturadas que cristalizarão sua reputação como o grande governador que não consegue atrair investimentos para o estado, nem oferecer educação, segurança e saúde de qualidade para o povo sem que uma câmera de tv esteja ligada por perto.
Vale lembrar, Vingador, que a descoberta do petróleo na camada submarina foi conquista de uma empresa estatal federal e não estadual. Até porque o orçamento destinado para pesquisa nas universidades estaduais não permitiria sequer a pesquisa da camada subcutânea, o que dirá da submarina.
Assim como nas manifestações que ocorriam na época da revolução, alguns apanharam, a justiça não será feita, não haverá união sequer entre os que seriam beneficiados pelas mudanças propostas e, pior, tudo cairá no esquecimento. Pelo menos, nas mentes entorpecidas dos telespectadores guiados e enebriados pela ditadura midiática de agora.
Em 1964, lembro-me bem, aguardava na fila do chocolate quente, no refeitório da colônia com meus colegas anjinhos, a oportunidade de voltar à Terra. O que só viria a acontecer 11 anos depois.
Nem por isso deixei de conhecer os nomes importantes da época de ambos os lados da questão. Quem entrou para a história e quem foi expulso dela. Quem já rondava o poder nos confins e conseguiu manter a tão sonhada “governabilidade” até hoje. Quem se aproveitou da história e quem ainda se apropria dela, apesar de fazer o contrário do que pregava na época. Estes são muitos...
Da fila do chocolate quente, espiava tudo que se passava aqui embaixo. Ficava doida para descer para “dar uma força”, mas ainda não era a minha hora. Quando desci, aprendi tudo na escola. Quando cresci, fui para frente da sala de aula. Lá encontro alunos mais velhos do que eu, que viveram aquela época, mas não sabem o que se passou. Têm pena dos professores, mas querem que a aula acabe logo para ver os últimos capítulos da novela sobre um país distante.
Em contrapartida, os mais jovens não parecem ter por que lutar. Com um talão de 24 prestações podem comprar um eletrodoméstico, um computador, um game de última geração no Brasil. Com um talão de 72 folhas podem até comprar um automóvel para estacionar na calçada em frente de casa. Mesmo que algumas contas fiquem para trás vez ou outra, o conforto da família está garantido.
Não parecem ter por que lutar. Hoje podemos dizer o que quisermos na Internet, mas nos noticiários e demais programas de TV, o monólogo impera. Na seção de cartas dos leitores nos jornais e nos programas de rádio, a voz do povo é a voz de Deus desde que editada.
O ideal de justiça social ou de uma sociedade mais igualitária agora é chamado de utopia socialista e vai desaparecendo na distância. Graças aos próprios governos que empregaram mal esse regime. Graças a um massacre publicitário que durante décadas vem se encarregando da lavagem cerebral, verdadeiro “genocídio” de sonhos de um mundo mais justo.
A falência do sistema capitalista, cujos indícios foram verificados nas últimas crises econômicas mundiais, aponta para ideias surgidas em países que vêm tentando através da social democracia (ou algo levemente parecido com isso) proteger o sistema financeiro sem sacrificar a população (ver filme “SICKO”, de Michael Moore). Ideias estas que indicam a perda de importância do dinheiro em detrimento da qualidade de vida. É justamente neste ponto que os questionamentos voltam a acontecer.
O mesmo ocorre comigo. Há alguns anos, decidi conduzir minha vida rumo à tal qualidade de vida, abdicando do lucro. Escolhi minha profissão e a sigo com dedicação praticamente exclusiva, apesar da baixa remuneração. Porém, em um momento de efervescência como lembrou-me os da revolução, ao invés de arregaçar as mangas, me vejo encurralada pensando nas contas para pagar e no ponto que será cortado se aderir à greve.
Estamos livres da ditadura militar, mas estamos presos em uma cadeia invisível chamada poder econômico. O dia acabou e não consegui atravessar o portal. Notei que minha liberdade de escolha esbarra em um muro invisível que começa em um capataz, o funcionário subalterno que cumpre ordens e vigia o “gado” para que ninguém se rebele. Mas não consigo ver onde o tal muro termina.
Contudo, penso que o fim de todo o muro é a queda. Se na Alemanha ele caiu, no Brasil, ele um dia há de cair também. E saio por aí assobiando Beatles como uma desculpa para minha covardia.
“You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well, you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know that you can count me out
Don't you know it's gonna be all right
all right, all right”
(Beatles, “Revolution”)
Lembrei imediatamente da manifestação dos meus colegas de trabalho ontem, em frente à Assembleia Legislativa, que culminou no confronto entre colegas de dureza, funcionários públicos estaduais: professores e policiais.
É praticamente certo que a alguns metros da manifestação algum pivete (que deveria, poderia e precisaria estar dentro de uma sala de aula) estivesse fazendo “algum ganho” livremente, pois quem deveria estar se (pre)ocupando com a segurança estava, na verdade, batendo nos grandes malfeitores da sociedade atual, os professores, essa raça de vagabundos.No entanto, a manifestação ocorreu um dia antes do portal da transformação se abrir. E, segundo o Mestre dos Magos, agora o Vingador já conta com a maioria dos deputados estaduais para aprovação do aumento parcelado em seis anos para a categoria. O Vingador, filho de professora, está mais preocupado com os lucrativos royalties advindos do pré-sal.
Afinal, a educação dos outros que se lixe, pois garantir o próprio futuro é muito mais importante. O desenvolvimento do país que se lixe, pois a retenção local dos lucros provenientes dos tais royalties garantiria orçamento para obras faraônicas e superfaturadas que cristalizarão sua reputação como o grande governador que não consegue atrair investimentos para o estado, nem oferecer educação, segurança e saúde de qualidade para o povo sem que uma câmera de tv esteja ligada por perto.
Vale lembrar, Vingador, que a descoberta do petróleo na camada submarina foi conquista de uma empresa estatal federal e não estadual. Até porque o orçamento destinado para pesquisa nas universidades estaduais não permitiria sequer a pesquisa da camada subcutânea, o que dirá da submarina.
Assim como nas manifestações que ocorriam na época da revolução, alguns apanharam, a justiça não será feita, não haverá união sequer entre os que seriam beneficiados pelas mudanças propostas e, pior, tudo cairá no esquecimento. Pelo menos, nas mentes entorpecidas dos telespectadores guiados e enebriados pela ditadura midiática de agora.
Em 1964, lembro-me bem, aguardava na fila do chocolate quente, no refeitório da colônia com meus colegas anjinhos, a oportunidade de voltar à Terra. O que só viria a acontecer 11 anos depois.
Nem por isso deixei de conhecer os nomes importantes da época de ambos os lados da questão. Quem entrou para a história e quem foi expulso dela. Quem já rondava o poder nos confins e conseguiu manter a tão sonhada “governabilidade” até hoje. Quem se aproveitou da história e quem ainda se apropria dela, apesar de fazer o contrário do que pregava na época. Estes são muitos...
Da fila do chocolate quente, espiava tudo que se passava aqui embaixo. Ficava doida para descer para “dar uma força”, mas ainda não era a minha hora. Quando desci, aprendi tudo na escola. Quando cresci, fui para frente da sala de aula. Lá encontro alunos mais velhos do que eu, que viveram aquela época, mas não sabem o que se passou. Têm pena dos professores, mas querem que a aula acabe logo para ver os últimos capítulos da novela sobre um país distante.
Em contrapartida, os mais jovens não parecem ter por que lutar. Com um talão de 24 prestações podem comprar um eletrodoméstico, um computador, um game de última geração no Brasil. Com um talão de 72 folhas podem até comprar um automóvel para estacionar na calçada em frente de casa. Mesmo que algumas contas fiquem para trás vez ou outra, o conforto da família está garantido.
Não parecem ter por que lutar. Hoje podemos dizer o que quisermos na Internet, mas nos noticiários e demais programas de TV, o monólogo impera. Na seção de cartas dos leitores nos jornais e nos programas de rádio, a voz do povo é a voz de Deus desde que editada.
O ideal de justiça social ou de uma sociedade mais igualitária agora é chamado de utopia socialista e vai desaparecendo na distância. Graças aos próprios governos que empregaram mal esse regime. Graças a um massacre publicitário que durante décadas vem se encarregando da lavagem cerebral, verdadeiro “genocídio” de sonhos de um mundo mais justo.
A falência do sistema capitalista, cujos indícios foram verificados nas últimas crises econômicas mundiais, aponta para ideias surgidas em países que vêm tentando através da social democracia (ou algo levemente parecido com isso) proteger o sistema financeiro sem sacrificar a população (ver filme “SICKO”, de Michael Moore). Ideias estas que indicam a perda de importância do dinheiro em detrimento da qualidade de vida. É justamente neste ponto que os questionamentos voltam a acontecer.
O mesmo ocorre comigo. Há alguns anos, decidi conduzir minha vida rumo à tal qualidade de vida, abdicando do lucro. Escolhi minha profissão e a sigo com dedicação praticamente exclusiva, apesar da baixa remuneração. Porém, em um momento de efervescência como lembrou-me os da revolução, ao invés de arregaçar as mangas, me vejo encurralada pensando nas contas para pagar e no ponto que será cortado se aderir à greve.
Estamos livres da ditadura militar, mas estamos presos em uma cadeia invisível chamada poder econômico. O dia acabou e não consegui atravessar o portal. Notei que minha liberdade de escolha esbarra em um muro invisível que começa em um capataz, o funcionário subalterno que cumpre ordens e vigia o “gado” para que ninguém se rebele. Mas não consigo ver onde o tal muro termina.Contudo, penso que o fim de todo o muro é a queda. Se na Alemanha ele caiu, no Brasil, ele um dia há de cair também. E saio por aí assobiando Beatles como uma desculpa para minha covardia.
“You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well, you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know that you can count me out
Don't you know it's gonna be all right
all right, all right”
(Beatles, “Revolution”)
Fotos retiradas dos sites www.cgtb.org.br e www.rnw.nl, respectivamente; ambas retratam manifestações ocorridas na década de 60.